A origem do mundo – Jorge Edwards

A origem do mundo

O enquadramento peculiar não revela nada abaixo das coxas ou acima dos seios da mulher. Ela está nua, deitada em uma cama, e escancara as pernas para o observador. Um lençol cobre seu pescoço e, o que é provável, seu rosto. A representação é realista e objetiva — muito diferente dos nus de inspiração clássica a que sociedade francesa estava habituada em 1866. Gustave Courbet decidiu chamá-la de A origem do mundo, e a tela é hoje um ponto de referência na história da arte. Em 1991, mais de cem anos depois da ousadia de Courbet, o chileno Jorge Edwards transportou a pintura para o centro de seu livro homônimo — uma novela de poucas páginas publicada há algumas semanas pela Cosac Naify. Se o quadro do francês 1. causa impacto imediato e significativo, mesmo hoje 2. quebrou alguns paradigmas das belas artes 3. procurou retratar o feminino com rigor e crueza, o mesmo não pode ser dito da história elaborada por Edwards.

Gustave Courbet, 1866Tudo acontece no início da década de noventa — pouco depois da primeira exposição pública, no Musée d’Orsay, da pintura A origem do mundo. Na cena inicial, cujo palco é o próprio museu, o protagonista Patricio Illanes observa a tela de Courbet. Illanes é chileno, médico aposentado e septuagenário. Como muitos compatriotas, escapou da ditadura de Pinochet e agora vive em Paris. Diante do quadro, Illanes reflete que as coxas, a barriga e o púbis retratados pelo artista francês se parecem com as coxas, a barriga e o púbis de Silvia, sua mulher. Ela não gosta da comparação e repreende o marido. A brincadeira, no entanto, tem a função de trazer à tona o nome de Felipe Díaz, um amigo do casal que cultiva o hábito de fotografar suas inúmeras amantes nuas. Numa dessas incríveis coincidências, Díaz, que já dava sinais de desânimo, se suicida pouco depois. Silvia, cujas atenções e menções a Felipe sempre levantaram suspeitas, fica descontrolada ao saber da morte do homem. É o que basta para despertar o ciúme de Patricio, que empreende uma busca patética por uma resposta. Silva foi amante de Felipe Diáz ou não? De que jeito “se pode saber a verdade, ou ao menos chegar perto disso que chamam de realidade e que nos escorre por todos os lados?”, questiona ele. 

A premissa não é nova, mas, se fosse bem conduzida, poderia render um livro interessante. Não é o que ocorre. A pequena novela de Edwards não é de modo algum tão rica quanto o tendencioso (já se verá por quê) Mario Vargas Llosa dá a entender no posfácio — quando diz que “sob a enganosa aparência de leve diversão, [a história] é na realidade uma complexa alegoria do fracasso, da perda das ilusões políticas, do demônio do sexo e da ficção como complemento indispensável da vida”. A origem do mundo toca de leve em cada um dos pontos citados pelo autor peruano, mas é um exagero acreditar que há mais por trás do livro de Edwards do que a própria narrativa — vacilante e de gosto duvidoso — sugere. 

Vargas Llosa tem razão quando fala na “ficção como complemento indispensável da vida”. Mais do que um entusiasta da ficção, no entanto, o protagonista também é um expectador da realidade circundante. Felipe Díaz não é apenas uma figura cativante e divertida aos olhos de Patricio Illanes. O septuagenário escuta as histórias do amigo mais jovem como se lesse um romance particularmente interessante, de modo que as aventuras sexuais do outro acabam por emprestar excitação à vida tão regrada e metódica de Illanes. É como se o médico vivesse através de Díaz sem, no entanto, assumir os riscos que isso implica — ele pode, afinal, censurar o amigo boêmio por abusar do uísque enquanto bebe tranquilamente a sua limonada. Com a morte de Díaz, Illanes precisa de um substituto que lhe traga a mesma sensação de romper certos limites. Na falta de uma figura ousada, ele mesmo precisa sair do seu papel confortável e desencavar alguma ação — e esta ação é a investigação do passado de Silvia. Não surpreende que ela esteja ligada a Felipe Díaz, que sempre despertou sentimentos ambíguos em Patricio.

(1. Durante uma conversa com Díaz, o velho médico evoca o personagem libertino que ganha destaque nas memórias de Stendhal. Numa interpretação curiosa, Patricio Illanes diz acreditar que o libertino é uma faceta do próprio Stendhal, embora o francês tenha procurado dissimulá-la. Se Felipe Díaz é um crítico impiedoso do comunismo, como Edwards, e se em A origem do mundo Illanes é o bom sujeito e Díaz é o dissoluto, e supondo que o diálogo não está ali por acaso, uma interpretação possível é que Felipe Diáz é uma versão de traços ligeiramente mais carregados do autor. 1. a) Edwards escreveu um livro narrando sua frustrante experiência como embaixador chileno em Cuba — no relato, intitulado Persona non grata, ele critica fortemente o governo de Fidel Castro. O sempre rancoroso Vargas Llosa destaca que Edwards foi “vítima da inquisição intelectual da esquerda, que, desde então, deu um jeito de negar-lhe a admiração”. 1. b) Daí a avaliação tendenciosa do escritor peruano.)

Illanes perde o rumo, e as situações em que se envolve a fim de descobrir a verdade vão ficando cada vez mais patéticas. Nesse contexto, como parece inevitável, o humor é um recurso largamente empregado por Edwards. Nem sempre funciona. A pretensa graça pode assumir um caráter óbvio ou pueril. Prova de que o texto é desigual é que em uma mesma cena, como na que Patricio Illanes decide se reconciliar com um casal de amigos com quem tivera divergências políticas, há uma mistura inexplicável de boas sacadas e clichês embaraçosos. As frases alongadas e labirínticas não conseguem, na maior parte do tempo, igualar-se em elegância às frases de mesmo estilo construídas pelo espanhol Javier Marías ou o argentino Alan Pauls, ambos pertencentes a uma geração posterior à de Edwards. A voz de Silvia, que narra o último capítulo, é insossa. Edwards fracassou visivelmente ao tentar se passar por uma mulher, preferindo apelar para uma personalidade genérica. 

Os bons momentos não estão ausentes do livro. É boa, como destacou Vargas Llosa, a cena que descreve o cenário do suicídio de Felipe Díaz. É uma pena que parte dos acertos do autor se perca em saídas fáceis ou se afogue em um estilo que, quando arriscado por Edwards, soa incrivelmente artificial. Os primeiros parágrafos do livro são tão incertos que encostam perigosamente no amadorismo. As emoções universais em estado bruto, as mesmas que viram obras-primas nas mãos de bons autores, se transformam, aqui, uma história banal narrada de forma canhestra. A edição caprichada não esconde o óbvio: A origem do mundo não é, sob qualquer aspecto, um grande livro.

Adendo: Edwards, um dos convidados da Flip de 2014, pertence à mesma geração de José Donoso. Se for escolher um, fique com Donoso. O ótimo O lugar sem limites custa exatamente o mesmo e é muito mais negócio.

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“Claro que ele sabia! E até o sétimo dia tinha tentado trocar a venenosa garrafa de Ballantine’s pela sedutora filósofa, convencido de que preferia a filósofa, mas no oitavo, isto é, na véspera do nosso encontro, depois de sonhar adormecido e até desperto com formas insinuantes: garrafas bojudas, verticais, redondas, de cerâmica, com rótulos verdes e letras douradas, com silhuetas de castelos da Escócia, com fitas vermelhas ou miniaturas emblemáticas, nas alturas de balcões que flutuavam por espaços siderais, reproduzidas por espelhos, entre luzes e sombras, veladas pela fumaça, silenciosas no meio dos gritos, das gargalhadas destemperadas, dos golpes de punhos nas mesas e do despertar junto à cintura de vespa, o púbis delicado e os seios perfeitos, perdido na estranha experiência de estar nu com ela em sua cama tão conhecida, tão frequentada e de falar de Platão, mas não depois de ter feito amor, e sim antes, e um antes que ia lhe parecendo infinito, chegou à conclusão, depois de tudo isso, e de repente, numa rajada intuitiva, de que preferia, em seu foro interno, no núcleo mais autêntico de si mesmo, ‘o que você quer que eu faça, Patito, assim é a vida, assim são as coisas!’, a garrafa, que era confiável e cúmplice, e que não lhe pedia que prestasse contas de nada.”

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A origem do mundo – Jorge Edwards
160 páginas
Tradução de José Rubens Siqueira
Editora Cosac Naify
R$ 29,90
Regular ✰✰ 

Altos voos e quedas livres – Julian Barnes

Altos voos e quedas livres

“Há dois tipos básicos de solidão: o que resulta de não se ter encontrado ninguém para amar. E o que resulta de ter sido privado da única pessoa que amou.” Inserida em um dos últimos blocos de texto de Altos voos e quedas livres, a observação tem o efeito de costurar os poucos, mas remotos, núcleos do livro. É um arremate discreto e ordenador que coloca as numerosas digressões e metáforas em perspectiva, deixando claro qual o papel que os recursos desempenham na estrutura do relato. Isso significa que, nas pouco mais de cem páginas, todos os caminhos conduzem diretamente a alguma consideração sobre o amor — este último, através exemplos menos e mais felizes, possível ou concreto. Para Barnes, o amor deve ter um “efeito moral”. Caso isso não aconteça, “então ele não passa de uma forma exagerada de prazer”. 

Barnes escreveu Altos voos e quedas livres depois da morte de sua mulher, Pat Kanavagh, agente literária, vítima, em 2008, de um tumor no cérebro. Ela e Julian estiveram casados por três décadas. Entre a descoberta do câncer e morte de Pat, passaram-se exatos 37 dias. A doença e seu curso inexorável, no entanto, definitivamente não interessam ao inglês. Barnes deseja falar sobre o buraco deixado pela partida de Pat — e o esforço criativo também é um exercício para tentar compreender e enfrentar a ausência. Assim, adiando o testemunho pessoal, o autor conta histórias que, à primeira vista, pouco ou nada têm a ver com a sua.

Dividido em três partes, Altos voos e quedas livres mistura as experiências de Barnes a outras de ordem diversa, ocorridas com personagens singulares ao longo do século XIX — ou simplesmente imaginadas pelo autor. “Você junta duas coisas que nunca foram juntadas antes. E o mundo se transforma”, escreve ele. As junções aleatórias e seus resultados inesperados, ponto importante para Barnes, não são visíveis apenas na temática. O próprio livro é como uma colagem particularmente rica e desordenada — e que, no entanto, funciona bem.

Iniciada de maneira incerta, a primeira parte se detém em Félix Tournachon, ou Félix Nadar, ”jornalista, caricaturista, fotógrafo, balonista, empresário e inventor”. Barnes não chega a romancear qualquer aspecto da trajetória de Nadar, preferindo trabalhar com os fatos conhecidos. Nadar foi o primeiro a unir fotografia e grandes altitudes — a partir do seu balão, captou perspectivas que o mundo jamais tinha visto. Na vida privada, Nadar era boêmio e infiel, o que não o impediu de ser um marido amoroso. Quando a mulher, Ernestine, sofreu um derrame e ficou severamente comprometida, ele esteve ao seu lado. E esse gesto é essencial para que sua história apareça no livro.

Na segunda parte, Barnes imagina um breve romance entre o aventureiro/soldado inglês Fred Burnaby e a atriz e cortesã Sarah Bernhardt (que posou algumas vezes para as lentes de Nadar). Este seria o exemplo de fracasso. Burnaby, perdidamente apaixonado por Sarah, está decidido a pedi-la em casamento. Sarah, no entanto, não tem interesse em formar um casal. Não se seu par for Burnaby.

A terceira parte é efetivamente autobiográfica. Ainda que Barnes sublinhe que cada um vive o luto à sua maneira, é difícil não comparar Altos voos e quedas livres com A história de uma viúva, livro em que Joyce Carol Oates aborda a morte inesperada do marido. Está tudo ali: o impulso suicida, as reações equivocadas e insensíveis dos amigos, a desconfiança de que o luto é uma espécie de egoísmo, a falta de um rumo, o medo de esquecer. Nesses aspectos, os relatos são muito semelhantes. É como se a terceira parte de Altos voos e quedas livres fosse uma versão compactada, e contada a partir de uma perspectiva masculina, de A história de uma viúva.

Diferente de JCO, Barnes não constrói uma narrativa linear que se inicia pouco antes — ou pouco depois — da morte de Pat e cujo objetivo é mostrar, com recortes e justaposições de cenas, a vivência diária do luto. O autor tampouco fala sobre a descoberta da doença da mulher ou revive lembranças específicas do primeiro encontro, da aproximação e do casamento. O que Barnes despeja são pequenas epifanias sobre o amor, a perda, a solidão e a memória. Como não evidencia nenhum aspecto de seu relacionamento, Barnes não se vê obrigado a mencionar a escritora Jeanette Winterson, por quem Pat o deixou durante um curto período de tempo nos anos oitenta. (Winterson usou o relacionamento entre ela e Pat como inspiração para o romance A Paixão, publicado no Brasil pela Record.)

Se JCO chama a atenção pela prolixidade, o autor de O sentido de um fim se destaca  pelas conclusões certeiras. Barnes, como Hemingway, usa uma ou duas frases para comunicar uma verdade objetiva. “Os trabalhadores do luto são autônomos”, escreve em dado momento. A delicadeza é outro trunfo do inglês — as próprias imagens de balões voando pelo céu são bons exemplos disso. O balonismo, aliás, é uma metáfora para a plenitude que o amor verdadeiro traria: “Alguns voam através da arte, outros da religião; a maioria do amor”, diz. Mas a consequência natural da subida é uma queda dolorosa. 

Há várias e boas correspondências entre as três partes do livro. Imagens usadas nas histórias de Nadar, Bernhardt e Burnaby ricocheteiam por todos os lados na forma de metáforas e comparações. Barnes, afinal, fez seu trabalho como escritor: transformou uma realidade dolorosa em um livro pungente e imaginativo e, a despeito da imobilidade do luto, extremamente dinâmico. Como ele mesmo diz, os “escritores acreditam nos padrões que suas palavras criam”. E “esta é sempre a salvação deles, estejam ou não devastados pelo luto”.

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“A primeira peça a que fui levado foi Oedipus; a primeira ópera, Elektra de Strauss. Mas enquanto assistia a essas tragédias terríveis, em que os deuses infligem um castigo intolerável ao erro humano, eu não me sentia transportado a uma cultura antiga, distante, onde o terror e a compaixão reinavam. Eu sentia, ao contrário, que Oedipus e Elektra estavam vindo para perto de mim, para a minha terra, para a nova geografia onde eu morava agora. E, inesperadamente, me apaixonei por ópera. Durante a maior parte da minha vida, essa tinha me parecido ser a forma menos compreensível de arte. Eu não compreendia realmente o que estava acontecendo (apesar de ler atentamente os resumos da história); tinha um certo preconceito contra aqueles piqueniqueiros de smoking que pareciam ser donos do gênero; mas acima de tudo eu não conseguia deixar minha imaginação voar. Óperas parecem peças inteiramente implausíveis e mal construídas, com personagens berrando ao mesmo tempo na cara uns dos outros. O problema inicial — o de compreensão — foi resolvido pela introdução de traduções projetadas acima do palco. Mas agora, na escuridão de um auditório e na escuridão do luto, a implausibilidade do gênero de repente desapareceu. Agora parecia natural que as pessoas entrassem no palco e cantassem umas para as outras, porque a música era uma maneira mais primitiva de comunicação do que a palavra falada — ao mesmo tempo mais alta e mais profunda. Em Don Carlo, de Verdi, o herói acabou de conhecer sua princesa francesa na floresta de Fontainebleau e já está de joelhos cantando: ‘Meu nome é Carlo e eu te amo.’ Sim, pensei, está certo, é assim que a vida é e deveria ser, vamos nos concentrar no que é essencial. É claro que a ópera tem um enredo — e eu já estava antecipando todas aquelas histórias desconhecidas que estava prestes a descobrir —, mas sua função principal é levar os personagens o mais rápido possível ao ponto em que eles possam cantar a respeito de suas emoções mais profundas. A ópera vai direto ao ponto, assim como a morte. Então, agora, uma indiferença satisfeita diante de Middlesbrough contra Slovan Bratislava coexistia com a ânsia por uma arte em que a norma era uma emoção violenta, avassaladora, histérica e destrutiva; uma arte que busca, mais obviamente do que qualquer forma de arte, partir seu coração. Aqui estava meu novo realismo social.”

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Altos voos e quedas livres  Julian Barnes
128 páginas
Tradução de Léa Viveiros de Castro
Editora Rocco
R$ 23,50
Excelente ✰✰✰✰✰ 

Quando muita informação estraga

Não me abandone jamais

Não me abandone jamais é um daqueles livros a respeito dos quais quanto menos você souber, melhor. Isso quer dizer que você deve lê-lo, é claro, mas sem investigações prévias. Não caia na tentação de espiar a sinopse. Fuja de resenhas e procure não escutar os — possivelmente assombrados — comentários sobre o enredo. Aqui, mais do que em outras situações semelhantes, a ignorância é uma vantagem. É ela que pode determinar a intensidade da sua experiência de leitura. (É preciso levar em conta que Não me abandone jamais não é nenhuma novidade. O livro foi publicado no Brasil em 2005, e desde então ganhou uma reimpressão. Também virou um filme homônimo estrelado por Keira Knightley e Carey Mulligan. Logo, é bem possível que o alerta e a indicação não atinjam mais do que dois ou três alvos que, como eu há algum tempo, não conhecem a história.)

O mínimo que você precisa saber também é, nesse caso, o máximo. Kathy, a narradora e protagonista, tem pouco mais de trinta anos quando decide examinar sua infância em Hailsham — uma espécie de colégio interno onde as habilidades artísticas dos alunos são muito valorizadas. Detalhes singulares indicam que há algo errado com o lugar — ou, o que parece mais terrível, com as próprias crianças. Como em uma trama policial, conhecer o segredo por trás dos acontecimentos tira o impacto de descobri-lo por conta própria. Entender tudo aos poucos, na medida em que as situações descritas ficam cada vez mais estranhas, é o ideal para absorver as variações que o livro oferece. 

Não saber o que vem pela frente permite que o leitor imerja na voz (consistente) de Kathy e estabeleça alguma conexão com ela. E a antecipação, ao contrário do que ocorre com um clássico como Anna Kariênina, pode ser determinante. Conhecer o desfecho do romance de Tolstói — e boa parte das pessoas o conhece, a tal ponto que Rubens Figueiredo, no prefácio da edição da Cosac Naify, fala sem rodeios sobre o fim trágico da protagonista — não rouba o prazer da leitura. Com o enredo de Ishiguro, talvez pelo insólito da situação proposta — além da visão restrita da própria Kathy —, as coisas se desenrolam em outro ritmo. Saber de antemão o que vai acontecer tem o poder de insensibilizar o leitor, que pode analisar as primeiras páginas com um olhar anestesiado.

A grande sacada de Kazuo Ishiguro, japonês radicado na Inglaterra — onde a história se passa —, é manter a narrativa num tom ameno. Kathy desfia suas memórias com alguma melancolia, mas com a tranquilidade de quem sabe que sua vida “deve seguir o curso que foi estabelecido para ela”. A sutileza da narrativa 1. camufla, durante certo tempo, a crueldade da situação em que a protagonista se encontra; 2. permite que apenas uns poucos detalhes, certas informações que soam deslocadas, preparem o leitor para a complexa questão que vem depois. A ideia do autor é justamente essa. Com o impacto da surpresa, o problema moral que Kazuo Ishiguro irá propor acerta o alvo com força redobrada. O alvo, óbvio, são as convicções mais nobres do leitor.

Esse problema moral, você vai ver, é a base do romance. Não há como fugir dele. Aliado ao talento do autor para contar uma boa história, o impasse torna Não me abandone jamais a escolha ideal para um clube do livro. A despeito do silêncio que (se tudo der certo) deve anteceder a leitura, o enredo foi feito para gerar bons debates. 

Confie.

Stefan Zweig reeditado

Tendo passado para o domínio público recentemente, a obra do austríaco Stefan Zweig começa a ganhar releituras. A editora Zahar saiu na frente: Maria Antonieta – Retrato de uma mulher comum, um dos mais famosos portraits do autor, chegou às livrarias no primeiro semestre de 2013. Em seguida foi a vez de O mundo insone, coleção de ensaios selecionados e comentados por Alberto Dines, biógrafo de Zweig e especialista em sua caudalosa produção. Três novelas femininas, outro livro importante, deve surgir em julho deste ano. 

No caso de Stefan Zweig, separar vida e obra é tarefa complicada. O autor nasceu em Viena em 1881 — mas quando morreu, em 1942, estava a quilômetros de distância de sua querida cidade. Zweig suicidou-se com a mulher em seu exílio em Petrópolis, no Rio de Janeiro, quando soube que um navio brasileiro havia sido torpedeado pelos nazistas. Era pacifista, e a guerra, outra, lhe causava enorme dor. Também era judeu, o que aumentava seu sofrimento e receio.

Os dois livros representam bem o pensamento — as influências e as tendências — de Zweig. São os ensaios, no entanto, que lançam alguma luz sobre a personalidade e a trajetória do austríaco. Carregado de experiências e visões pessoais, O mundo insone permite enxergar um Zweig afetivo e cauteloso; além disso, alguns textos contêm confissões que podem ajudar a entender certas escolhas referentes à elaboração da biografia de Maria AntonietaEm “A história como poeta”, um dos melhores da coletânea, Zweig critica o que se costuma apontar como “biografia romanceada”, que seria “a representação da vida requentada em um romance, em que a verdade se mistura a bel-prazer com o inventado, o documental com a mentira, em que grandiosos personagens e fatos são iluminados a partir de uma psicologia particular, e não pela lógica impiedosa da História”. E continua: “Nessas biografias romanceadas, o artifício consiste em retocar os traços considerados ‘pequenos’ e reforçar os heroicos e interessantes. Mas assim surgem cartazes, e não retratos psicológicos”.  

Há divergências. Otto Maria Carpeaux, outro austríaco que desembarcou no Brasil, foi categórico ao afirmar que Stefan Zweig escreveu, sim, biografias romanceadas. Para completar, ainda chamou o conterrâneo de “mestre desse gênero menor”. A adesão ao modelo poderia ser explicada pelo lugar e época de nascimento de Zweig, escritor que, de acordo com Carpeaux, “veio, literariamente, do simbolismo vienense de 1900 (…)”. Zweig teria praticado o “simbolismo psicanalítico”.

Otto Carpeaux não usa o adjetivo “psicanalítico” sem razão — e tampouco sem desdém. O autor de Maria Antonieta realmente amparou boa parte das suas análises nos escritos do mestre e amigo Sigmund Freud. Ao se referir à falta de autoridade em Luís XVI, por exemplo, Stefan Zweig salienta que “com clareza quase clínica seu comportamento humano mostra todas as características típicas de um complexo de inferioridade oriundo de fraqueza viril”. A ideia, claro, é freudiana.

O caso é que a influência de Freud não é levada às últimas consequências. É, aliás, de leve a moderada. Ainda no ensaio, Zweig é claro ao afirmar que prefere “a representação historicamente fiel, que abdica de qualquer fantasia”. A biografia fiel “não inventa nada de novo, apenas interpreta o que já existe”, diz. É nessa interpretação que se vê, ainda que de forma intermitente, a influência freudiana. O fato é que a presença da psicanálise não invalida o olhar de Zweig — sequer o torna menos rigoroso. Isso não quer dizer que sua veia de romancista fique esquecida: “a biografia severamente objetiva e histórica não precisa se tornar uma mera coleção estéril de documentos, relato frio a posteriori”. Talvez seja isso o que tenha desagradado a Carpeaux.

No prefácio, Alberto Dines é só elogios: “Zweig fez uma das mais perfeitas experiências de psico-história”. Maria Antonieta é sem dúvida uma leitura marcante. Mesmo com a dramaticidade de um réquiem de Mozart — Zweig foi um grande apreciador de música, como deixa claro em um dos ensaios mais saudosistas de O mundo insone —, o autor foi bem-sucedido ao assumir a complexidade da figura central. Sua abordagem admite impossibilidade de se desvendar a história e seus protagonistas por completo. Naquilo que é possível apreender, porém, o olhar de Zweig, guiado por sua ética admirável, é inflexível. Essa (até certo ponto) recusa em encarar Maria Antonieta com indulgência desagradou Sofia Coppola, que, na preparação para o longa homônimo, se negou a ler o portrait do austríaco — a cineasta preferiu se basear na biografia de Antonia Fraser. 

A história de Maria Antonieta — para a novíssima geração, graças ao já citado filme de Sofia Coppola — é bem conhecida. Por que ler o livro de Stefan Zweig? Se não estiver no estilo ou na abordagem, a resposta pode estar nas curiosidades levantadas pelo autor.

Ao narrar a chegada de Maria Antonieta ao solo francês, Zweig alude aos famosos pavilhões de madeira erguidos em certas ilhas de areia localizadas na divisa entre a França e Alemanha. A menina, então com catorze anos, deveria entrar por uma porta como austríaca e sair por outra porta como francesa. Antes que sua comitiva aparecesse por lá, porém, alguns estudantes subornam os guardiões do lugar para que possam dar uma espiada no interior dessas construções. Um dos garotos fica horrorizado ao enxergar uma das tapeçarias que decoram o lugar — a peça representa a história de Jasão, Medeia e Creusa, “exemplo crasso de matrimônio funesto”. Os amigos precisam acalmar o jovem e arrastá-lo dali.

O rapaz que se enfureceu com o deslize era 1. alemão, naturalmente; 2. ninguém menos que Johann Wolfgang von Goethe. O equívoco lhe pareceu incompreensível e imperdoável. “Não haverá entre os arquitetos franceses, entre os decoradores e tapeceiros, ninguém que compreenda que imagens representam alguma coisa, que imagens produzem efeitos sobre os sentidos e os sentimentos, que causam impressões, que provocam presságios?”, diz o jovem. Goethe, de quem Stefan Zweig foi leitor apaixonado, de certa forma antecipou a catástrofe. Só não sabia qual seria sua natureza e nem a sua real dimensão. 

Há várias outras boas passagens. A adoção do Petit Trianon por Maria Antonieta mereceu um capítulo próprio. Compreensível: os esforços empregados para transformar o palacete e a área em volta em um santuário perfeito são atordoantes. O caso do colar da rainha, já narrado por Alexandre Dumas (esse sim um romance histórico) e adaptado para o cinema algumas vezes, ganha novas nuances através da escrita de Stefan Zweig. São episódios assim, um tanto inacreditáveis e patéticos, que reforçam a impressão de que a derrocada de Luís XVI e Maria Antonieta não passou de uma (tragi)comédia de equívocos. 

Por mais que a história de Maria Antonieta cause algum desconforto, o tom de O mundo insone é mais trágico. O processo de escolha de textos foi, segundo Dines, “amparado na flexibilidade adotada pelo próprio Zweig na definição do que é ensaio”.

“Montaigne e a liberdade espiritual”, uma espécie de portrait em miniatura que abre o livro, dá uma boa ideia do que vem pela frente. Ao exaltar a renúncia de Montaigne à vida pública e doméstica e a decisão do pensador de permanecer trancado em uma torre com seus livros, Zweig deixa clara a forma como raciocina. Sua visão não se altera um milímetro. O austríaco jamais propõe que se lute contra obstáculos externos — prega, ao invés disso, a resistência interior. Trechos significativos: “só nos resta uma coisa: fugir, fugir para dentro de nós mesmos” e “só se pode defender o indivíduo dentro de si próprio”.

Grande parte do livro é dedicada aos bons amigos de Zweig, todos intelectuais ou artistas da época. “Os mestres” traz ensaios sobre três figuras: Émile Verhaeren, Romain Rolland e Sigmund Freud. O último é um texto escrito e pronunciado por ocasião da morte do pai da psicanálise. (Freud, aliás, faz uma boa leitura de Zweig: “O seu tipo é do observador, aquele que escuta e luta de forma benevolente e terna a fim de avançar na compreensão do que é inquietantemente excessivo”.) Ao relatar a trajetória de Romain Rolland, com quem depois rompeu a amizade, Zweig levanta um episódio interessante envolvendo Tolstói. O melhor dos três ensaios, porém, ou o mais emocionante, é aquele escrito em memória de Émile Verhaeren. O afeto de Zweig pelo poeta, morto em 1916 em circunstâncias nunca totalmente esclarecidas, é palpável. Sua perplexidade e sua saudade também. Zweig relembra a rotina tranquila do amigo, os dias passados em sua casa de campo, a forma como Verhearen procurava doar sua atenção e seu tempo, seu processo criativo que parecia tão seguro e tão natural. Em um dos textos, Zweig analisa a melhora na produção de Herman Hesse; em outro, fala dos ideais de Joseph Roth.  

É possível enxergar em O mundo insone uma espécie de linha do tempo. Depois do texto sobre Montaigne, a maior parte do que Zweig escreve está relacionada a um dos dois conflitos mundiais. “O mundo insone”, ensaio que dá título ao livro, é ainda sobre a Primeira Guerra. Num tom sóbrio, Zweig resgata algo aparentemente banal — a impossibilidade de dormir — para evocar a preocupação com amigos e parentes distantes. “A tragédia do esquecimento”, o ensaio seguinte, é um alerta visionário de Zweig que marca também o tempo transcorrido. A guerra terminou, mas o austríaco incentiva os contemporâneos a lembrar continuamente dos seus horrores. Ao criticar a memória seletiva, a ideia é justamente impedir que algo assim se repita. Zweig soa ao mesmo tempo desiludido e esperançoso, mas essa esperança vai murchar ao longo dos ensaios seguintes. “Revolta contra a lentidão” é uma desapontada análise em que Zweig reconhece que a juventude alemã alçou o nazismo ao poder por não se contentar com a ineficiência dos antigos governantes. “Um protesto na gaveta” é uma tentativa de Zweig de criar um manifesto de intelectuais judeus contra os nazistas. Ninguém aderiu, o que possivelmente que se deve ao tom pacifista do documento. Os dois textos que compõem a “A questão judaica” dão mostras do desamparo de Zweig. Um deles é um apanhado de ideias que desembocam em um assustador non sequitur, fato incomum para alguém tão ponderado como o autor.

Os últimos cinco ensaios do livro, todos relacionados à iminência ou ao estouro da Segunda Guerra, são os mais dolorosos. A veia pacifista de Zweig aparece com força, o desespero cresce e a esperança murcha. Zweig pede que seus contemporâneos resistam, mas ele mesmo começar a arrefecer e a soar saudosista. 

“A monotonização do mundo”, que difere de todos os demais, talvez cause algum desconforto se lido fora do contexto em que Zweig vivia — assim como sua devoção à psicanálise pareceu suspeita a Otto Carpeaux. No texto, Zweig condena o rádio, a moda, o cinema e a música popular por tornarem os homens e mulheres indolentes e muito parecidos entre si. Os povos estariam perdendo aquilo que os identifica; as pessoas estariam deixando de fazer esforço mental. Quando se lê sua homenagem a Viena de fin de siècle, onde louva a pluralidade de culturas e o que cada povo teria de especial, entende-se — ainda que não se concorde com ele — seu desapontamento.

Apesar de propor um novo fôlego e um novo espaço para a obra de Stefan Zweig, a Zahar preferiu não arriscar — delegou boa parte do trabalho a Alberto Dines, incluindo prefácios e posfácios. Em O mundo insone, Dines abre cada um dos textos do austríaco com algumas palavras que procuram contextualizá-lo. Além de resultarem em explicações um tanto confusas, essas intervenções ainda carregam nos adjetivos — o que pode condicionar a interpretação do leitor ao olhar particular do especialista. A dureza de Dines também causa algum espanto. Classifica um dos textos, um clamor pacifista, de “patético”. Em outro, chama Zweig de “Cassandra acovardada”. Já envolvido pela delicadeza extrema de Zweig, o leitor se pergunta por que razão Dines resolveu estudar a obra de um autor por quem não é capaz de demonstrar empatia ou respeito. É oportuno resgatar o que disse Evando Nascimento no prefácio da biografia de Jacques Derrida  Nascimento destaca que um especialista teria “uma relação especial, afetiva até, com a obra do pensador de partida”. Não parece ser o caso de Dines, que soa impiedoso e muito distante do que o leitor, por mais leigo que seja, consegue apreender da essência do austríaco. Não é razão para se descartar a seleção: ela é interessante e coesa. A intenção de Dines de montar uma sequência que fizesse sentido foi bem-sucedida. O mundo insone é um grande livro.

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“A principal preocupação de Maria Antonieta concentra-se em seu jardim, pois obviamente ele não deve comparar-se de maneira alguma ao jardim histórico de Versalles; deve tornar-se o mais moderno, o mais atual, o mais original, o mais frívolo de toda a época, um genuíno e autêntico jardim rococó. Outra vez, consciente ou inconscientemente, Maria Antonieta obedece com esse desejo aos ditames do novo gosto de seu tempo. Pois se tornaram cansativas as grandes áreas de gramado como que traçadas a régua por Lenôtre, o grande mestre construtor dos jardins, os arbustos podados a navalha, seus ornamentos friamente calculados com o esquadro, que deveriam friamente exibir que Luís, o Rei Sol, tinha moldado não só a nação de uma forma predeterminada por ele, mas também a paisagem de Deus. Os olhos fartaram-se de admirar aquela geometria, ficaram cansados do “massacre da natureza”; e como se fizesse referência a todo o desconforto cultural da época, novamente o marginal da “sociedade”, Jean-Jacques Rousseau, encontra a palavra libertadora, ao exigir uma “reserva natural” em sua Nova Heloísa. Ora, sem dúvida Maria Antonieta jamais leu a Nova Heloísa, conhece Jean-Jacques Rousseau quando muito quando compositor da peça musical “Le devin du village”. Todavia, as concepções de Jean-Jacques Rousseau vagavam na ocasião ainda pelo ar. Marquesas e duques ficam com os olhos marejados de lágrimas quando ouvem falar desse nobre arauto da inocência (na vida privada, um homo perversissimus). São imensamente gratos a ele, pois lhes proporcionou uma última sensação após tantos estímulos excitantes: o jogo da ingenuidade, a perversão da inocência, a máscara da naturalidade. Claro que Maria Antonieta deseja agora um jardim “natural”, uma paisagem inocente, o mais natural de todos os jardins naturais da moda. Assim, conclama os melhores, os mais requintados artistas da época para que lhe concebam da maneira mais artística possível o mais natural de todos os jardins. Pois — modismo da época! — almeja-se nesse “jardim anglo-chinês” não apenas representar a natureza, mas a natureza inteira, representar naquele microcosmo de alguns quilômetros quadrados o cosmo inteiro em versão miniatura. Tudo deve estar presente naquele mínimo espaço, árvores francesas, indianas, africanas, tulipas holandesas, magnólias meridionais, um lago e um riacho, uma montanha e uma gruta, uma ruína romântica e casinholas campestres, templos gregos e construções orientais, moinhos holandeses, o norte e o sul, o Oriente e o Ocidente, o mais natural e o mais exótico, tudo artificial e ao mesmo tempo autêntico; o arquiteto planeja até colocar nesse pedacinho de terra um vulcão estilizado lançando fumaça e lava incandescente e um pagode chinês. Felizmente sua sugestão se revela dispendiosa demais. Estimulados pela impaciência da rainha, centenas de operários começam a tornar realidade os planos dos arquitetos e pintures, transformando-os depressa numa paisagem pitoresca, conscientemente leve e natural. Primeiro constrói-se em meio aos gramados um regato de murmurantes águas suaves e poéticas, componente indispensável de qualquer idílio bucólico; sem mencionar que a água deve ser tradiza de Marly em canos de um quilômetro, nos quais também se esvai muito dinheiro; porém, o importante é que suas curvas labirínticas pareçam aprazíveis e naturais. Suavemente esse regato deságua no lago artificial com sua ilhota artificial, dócil curva-se sob as delicadas pontes, com graça impele a penugem brilhante dos alvos cisnes. Como que saído de versos anacreônticos, emerge o rochedo com seu musgo artificial, a gruta do amor artificialmente encoberta e o romântico mirante. Nada faz crer que a paisagem tão enternecedora e ingênua fora esboçada em incontáveis folhas coloridas, que tenham sido construídos vinte modelos em gesso de toda a área, nos quais representavam o lago e o regato com pedacinhos de espelho, os prados e árvores, como num presépio, com moldes de musgo colorido. Porém, é preciso continuar sempre! Todos os anos a rainha tem novos caprichos, seu reino deve ser enfeitado com canteiros sempre mais selecionados e naturais, não quer esperar que as contas antigas sejam pagas. Como que espalhadas aleatoriamente, porém calculadas com precisão por seus arquitetos românticos, essas preciosidades são construídas no jardim para aumentar o encanto. Um pequeno templo dedicado ao deus daqueles tempos, o templo do amor, ergue-se sobre uma suave colina; a antiga cúpula aberta mostra uma das mais lindas estátuas de Bouchardon, um Cupido que talha seu arco mais certeiro com a clava de Hércules. Uma gruta, a gruta do amor, é esculpida com tanta habilidade nos rochedos que um casal de amantes pode imediatamente perceber algum intruso, e assim não se deixar flagrar em meio a carícias. Trilhas sinuosas cortam o pequeno bosque, os prados se cobrem de flores raras, perto dali reluz o verde brilhante de um pequeno pavilhão de música, octógono de um branco cintilante, tudo isso disposto lado a lado com tamanho bom gosto que tudo se harmoniza, pois a graça do conjunto não reflete sua artificialidade. A moda, todavia, exige ainda maior autenticidade. Para tornar a natureza mais exageradamente natural, para conferir aos cenários a veracidade mais incontestável, inserem na mais dispendiosa comédia pastoril de todos os tempos figurantes de verdade para enfatizar ainda mais o engodo da autenticidade: camponeses e camponesas autênticos, autênticas pastoras com vacas, bezerros, porcos, coelhos e ovelhas de verdade, autênticos ceifeiros, segadores e pastores, caçadores, lavadeiros e queijeiros, para que pudessem ceifar, lavar, adubar e ordenhar, e assim o teatro de marionetes poderia movimentar-se eternamente. Um novo e mais profundo assalto aos cofres públicos, e sob as ordens de Maria Antonieta ergue-se ao lado do Trianon um teatro de bonecos em tamanho natural para aquelas crianças mimadas, com estábulos, palheiros e celeiros, com pombais e galinheiros, o famoso Hameau. O grande arquiteto Mique e o pintor Hubert Robert desenham, criam, constroem oito fazendolas, cópias exatas das existentes nos arredores, com telhados cobertos de palha, galinheiros e estrumeira. A fim de que as falsificações novas em folha em meio à caríssima naturea recém-construída não parecessem pouco autênticas, imita-se exteriormente até a pobreza e a decadência de verdadeiras choupanas miseráveis. Com o martelo inserem-se rachaduras nas paredes, deixa-se o reboco esfarelar romanticamente, arrancam-se algumas ripas de madeira; Hubert Robert pinta rachaduras artísticas na madeira, para que tudo tivesse um aspecto podre e envelhecido, as chaminés são esfumaçadas de preto. No interior, ao contrário, algumas das casas aparentemente em ruínas são decoradas com o maior conforto, com espelhos e fogões, mesas de bilhas e canapés confortáveis. Pois caso a rainha um dia se sinta entediada, com vontade de brincar à Jean-Jacques Rousseau, e se ponha a fazer manteiga com as próprias mãos com as damas da corte, ela não deve de maneira alguma sujar seus dedinhos. Quando faz uma visita a suas vacas Brunette e Blanchette no estábulo, o chão é obviamente limpo por mãos invisíveis, até ficar brilhando como um assoalho; o pelo branco e marrom é escovado, e o leite espumante não é servido em vasilhames rústicos, e sim em vasos de porcelana especialmente produzidos na fábrica de Sèvres e ornados com o monograma da rainha. Esse Hameau, hoje encantador por sua decadência, era um teatro ao ar livre para Maria Antonieta, uma leve comédie champêtre, quase provocadora justamente por sua leveza. Pois enquanto na França inteira os camponeses já se amotinam, enquanto os aldeões oprimidos pelos impostos clamam revoltados com incrível violência por uma melhora da situação insustentável, reina nesse cenário de aldeia à Potemkin* um bem-estar pueril e mentiroso. Ovelhas são conduzidas ao pasto com fitas azuis, sob a sombrinha empunhada pela dama da corte, a rainha observa as lavadeiras lavando as roupas de linho no regato murmurante: ah, é tão esplêndida essa simplicidade, tão moral e tão cômoda, tudo limpo e encantador nesse mundo paradisíaco, a vida aqui é tão clara e translúcida quanto o leite que espuma dos úberes das vacas. Escolhem-se vestidos de fina musselina, simples, à moda campestre (e neles posa-se de modelo para algumas pinturas ao preço de alguns milhares de libras); entregam-se a inocentes jogos, cultivam o gôut de la nature com toda a frivolidade da saturação. Pesca-se, colhem-se flores, passeia-se — raramente a sós — pelos caminhos sinuosos, corre-se pelos prados, observa-se o trabalho dos esforçados camponeses como figurantes, há jogo de peteca, dançam-se o minueto e a gavota sobre tapetes de flores, não sobre assoalhos lisos, penduram-se balanços entre as árvores, monta-se um jogo chinês de anéis, brinca-se de esconder entre as cabanas e as alamedas de árvores, cavalga-se, diverte-se e assiste-se a um espetáculo teatral encenado dentro desse teatro natural, e por fim representam uns para os outros.”
Maria Antonieta

Longe da árvore – Andrew Solomon (ou: Um livro que você precisa abrir)

Longe da árvore

Longe da árvore, publicado pela Companhia das Letras em setembro de 2013, desponta como um livro indispensável. Em sua coluna no jornal Folha de S. Paulo, o psicanalista Contardo Calligaris classificou-o como “um dos ensaios mais importantes da última década”. Calligaris não é o primeiro a se mostrar genuinamente impressionado com a qualidade e a magnitude da pesquisa. 

Descrever o que Andrew Solomon entrega em Longe da árvore é ao mesmo tempo fácil e inviável. É fácil (ainda que terrivelmente simplificador) dizer que Solomon produziu uma investigação exaustiva sobre a forma pela qual certas características dos filhos afetam e determinam as relações com seus pais. O que parece inviável é a ação de apreender e relatar uma experiência mais profunda de leitura — que, apesar de variar de um leitor para o outro,

1. certamente será transformadora;
2. espelha a riqueza das nuances contidas no livro

Minha experiência de leitura envolve adjetivos como “encantadora”, “fundamental” e “reveladora”. Isso se deve a uma equação equilibrada a que o autor parece ter chegado — mistura de rigor incansável e sensibilidade aguda.   

Solomon esquadrinha os filhos que, ao contrário do ditado, caíram longe da árvore. O exercício de imaginação (indiretamente) proposto no prefácio faz sentido tanto para os que já experimentaram a paternidade como para aqueles que têm uma vaga ideia sobre como a coisa funciona. Você descobre que vai ter um filho, e imediatamente começa a desenvolver expectativas e fantasias em relação à criança que ainda não nasceu. Você espera que ela tenha a melhor vida possível e é capaz de apontar os atributos que fariam parte (e os que definitivamente estariam excluídos) de uma existência ideal. Além disso, você obviamente deseja enxergar suas melhores características encarnadas em outro ser humano — nossos genes, como escreveu Solomon, são de fato “egoístas”. Então imagine que algo não sai conforme o esperado e planejado. Há uma característica peculiar, que possivelmente é estranha a você, que define seu filho. E, na medida em que o define, ela pode ao mesmo tempo comprometê-lo seriamente.

O subtítulo — Pais, filhos e a busca da identidade  dá uma boa pista sobre o conteúdo. A palavra-chave do estudo de Solomon é “identidade” — que pode ser vertical ou horizontal. De acordo com a explicação do autor, uma identidade vertical compreende tudo aquilo que o filho compartilha com os pais, da aparência física à nacionalidade. A identidade horizontal, significativamente mais complexa, ocorre quando o filho apresenta “uma característica inata ou adquirida que é estranha a seus pais”. Essa característica pode se manifestar em consequência de “genes recessivos, mutações aleatórias, influências pré-natais” ou, de maneira distinta, mas ainda assim poderosa, pode refletir “valores e preferências que uma criança não compartilha com seus progenitores”.

As características horizontais que entrariam no livro foram previamente definidas pelo autor. Solomon esclarece no prefácio: “Os seis primeiros capítulos tratam de categorias classificadas há muito tempo como doenças” — surdez, nanismo, síndrome de Down, autismo, esquizofrenia e deficiências múltiplas —, “enquanto os quatro que os seguem descrevem as categorias que parecem ser mais socialmente construídas” — prodígios, filhos concebidos por estupro, criminosos e transgêneros.  

Ao reunir uma série de relatos — todos baseados em entrevistas ou leituras de Solomon — em que se destacam as maneiras pelas quais as famílias percebem e assimilam as diferenças, Longe da árvore garante seu maior trunfo: provocar empatia imediata e extrema. Questionamentos e autoanálise poderosos são consequência direta dessa possibilidade de reconhecer o outro que Solomon tão generosamente oferece. Pouco importa que as diversas experiências, com suas respectivas cargas de dor e sofrimento, estejam distantes daquelas a que o leitor está habituado. As histórias de tantos desconhecidos, como destaca o autor, “apontam para todos nós um caminho para expandir nossas definições de família humana”. 

“Como um pai ou mãe pode saber se deve apagar ou celebrar uma determinada característica?”, pergunta Solomon. E sublinha que “identidades verticais em geral são respeitadas como identidades; as horizontais são muitas vezes tratadas como defeitos”. Isso significa que alguns pais tentam, geralmente com boas intenções, eliminar ou modificar alguma característica do filho. “Muitas vezes usamos o termo ‘doença’ para depreciar um modo de ser, e ‘identidade’ para validar essa mesma maneira de ser. Trata-se de uma falsa dicotomia”, escreve o autor. Nada impede que ambas convivam em harmonia: necessitamos “de um vocabulário em que os dois conceitos não sejam opostos, mas aspectos compatíveis de uma condição”. Como esclarece Solomon em um dos capítulos, a maior parte dos casos encontrados no livro “admite um modelo positivo de identidade e um modelo negativo de transtorno”.

Ao descobrir que seus filhos comportam uma identidade horizontal, muitas famílias buscam comunidades de apoio — para a criança e para os pais. O amparo e a troca de informações são essenciais para que aqueles que ainda não estão seguros sobre o rumo a tomar se sintam acolhidos e orientados. Os mais experientes normalmente ficam felizes em ser úteis. Assim, não raro a dedicação — e a percepção das dificuldades, como uma mãe de autista que se dá conta do número limitado de vagas em escolas públicas — desemboca na militância. Boa parte dos casos apresentados por Solomon mostra pais orgulhosos e engajados, que afirmam que o fato de ter tido um filho fora do comum os ajudou a desenvolver a sensibilidade, a coragem e a empatia. Isso não quer dizer que a jornada seja simples. A maioria dos pais, segundo o autor, precisa de um “espaço para sua ambivalência”: essa parcela ratifica que o filho é uma fonte de alegria e satisfação, mas admite a complexidade de sentimentos e o estresse envolvido na equação. 

É fácil acreditar que Andrew Solomon, que já havia publicado O demônio do meio-dia — uma intrincada análise da depressão —, é um autor que reúne as qualidade essenciais para interpelar um tema tão delicado. Sua moderação e diligência acenam em cada bloco de texto. A pesquisa de Solomon, ele próprio gay e disléxico duas identidades horizontais , é tão extensa e pormenorizada que termina por revelar uma personalidade deliciosamente obsessiva e perfeccionista. Bom frisar que Longe da árvore é um tijolo de mais de mil páginas, vertido para o português por três tradutores (Donaldson M. Garschagen, Luiz A. de Araújo e Pedro Maia Soares). Durante dez anos, Andrew Solomon entrevistou mais de trezentas famílias para o livro. Foram produzidas cerca de quarenta mil páginas de transcrições e entrevistas. As notas ao final do volume parecem intermináveis  e apontam para vários tipos de fontes, de artigos acadêmicos a poemas de Emily Dickinson. Solomon é versátil, e sua sensibilidade refinada e rigor extremo desembocam tanto na arte quanto na ciência.

A fórmula é a mesma em todos os capítulos. Andrew Solomon narra a trajetória de uma família pais e seus filhos que fogem do comum  e suas impressões sobre ela. São várias famílias por capítulo. Trechos das entrevistas são destacados, de modo que os protagonistas das histórias possam ter voz. Intercaladas com os relatos, o autor insere informações que podem contribuir para o entendimento do assunto em pauta: contexto histórico, últimos consensos científicos, conclusões de livros específicos etc. Além disso, a forma como as comunidades e o Estado acolhem as diferenças é um ponto importante da pesquisa. Bons exemplos: o despreparo generalizado para tratar esquizofrênicos e a escassez de programas que evitem que jovens se tornem delinquentes (“Nossa sociedade se insurge contra as atrocidades perpetradas por menores, mas invariavelmente prefere a satisfação da retribuição à eficácia da prevenção”, diz, certeiro).

Algumas declarações, como a de um pai de uma menina com deficiências múltiplas, causam uma comoção imediata: “Você vai ao Central Park com uma criança com necessidades especiais, e outro pai finge que não vê. Não lhe passa pela cabeça aproximar-se e propor que os filhos dele brinquem com os seus”, diz ele. Em um dos trechos mais teóricos do livro, Solomon menciona o  imaginacionismo, “a ideia de que mães com desejos pervertidos produziam filhos deformados e perturbados” conceito tão absurdo que é difícil de ser assimilado. Esse insight para selecionar os pontos cruciais de diálogos e abstrações é outro ponto forte do autor  o que mantém o ritmo de leitura inalterado.   

Em relação às seis primeiras partes, as que tratam de condições que são consideradas doenças, é possível evocar um trecho escrito por Alan O. Ross — numa citação do próprio Solomon em um dos capítulos de Longe da árvore: as expectativas dos pais “pressupõem invariavelmente que o filho conseguirá superar ou pelo menos atingir o nível de realização sociocultural deles”. No momento em que veem que “o filho não corresponde a essa imagem, os pais em geral precisam de ajuda para adaptar seu comportamento à realidade — necessitam aprender a lidar com a dissonância entre a imagem que têm de ‘um filho’ e a realidade do ‘seu filho’”. E aí vem o ponto mais importante: a aceitação. “É difícil saber até que ponto as experiências positivas geram percepções positivas e até que ponto ocorre o inverso”, escreve Solomon.

A experiência pessoal do autor não ficou de fora do livro — outro ponto que demonstra que Longe da árvore está longe de ser uma pesquisa convencional. Em “Filho”, uma espécie de prefácio, Solomon faz uma análise corajosa e honesta de sua decepção com os pais, que rejeitaram sua homossexualidade. No final, “Pai”, narra a trajetória da família diferente que construiu com o marido, John.

Boa parte dos relatos, de familiares de surdos a familiares de autistas, têm um ponto em comum: o desespero e a ansiedade dos pais para encontrar uma linguagem adequada a fim de compreender e serem compreendidos por seus filhos. O leitor é um espectador angustiado (e possivelmente solidário) das dificuldades envolvidas nessas tentativas de estabelecer uma ponte que alcance uma criança ou um jovem incomum. No caso dos que têm as ferramentas necessárias para exprimir seus pensamentos e emoções e compreender os dos outros, há a barreira quase intransponível da experiência: o exercício que um pai precisa fazer para imaginar a vida de seu filho transgênero é complexo; uma mãe que deseja se colocar no lugar do filho portador de nanismo também enfrenta alguma dificuldade.  

A esquizofrenia é uma das experiências mais dolorosas. Ao contrário da síndrome de Down, que pode ser detectada antes ou ser percebida minutos após o nascimento, e do autismo, que se manifesta nos primeiros anos de vida da criança, a esquizofrenia surge no fim da adolescência ou no começo da vida adulta. É mais difícil para os pais “aceitar que o filho que eles conheceram e amaram durante mais de uma década pode estar irremediavelmente perdido, ainda que pareça ser o mesmo de sempre”.

A inclusão de prodígios não causa surpresa, uma vez que, segundo Solomon, “os pais de filhos excepcionalmente talentosos são guardiões de crianças fora do alcance de sua compreensão”. O autor concentrou sua atenção nos prodígios da música, tópico com o qual tem mais familiaridade. O sofrimento de pais de gênios e dos próprios gênios é, ao contrário do que se pode supor, tão grande quanto o dos demais. “Se as expectativas da sociedade pela maioria das crianças com diferenças profundas são demasiado baixas, as expectativas depositadas nos prodígios tendem a ser perigosamente altas”, escreve Solomon. Ressaltando o apoio medíocre que os prodígios recebem, o autor reproduz uma observação mordaz do maestro Leon Botstein  uma crítica ao sistema escolar norte-americano: “Se pusessem Beethoven numa creche de hoje, iriam medicá-lo e ele seria um funcionário do correio”. “Os pais de muitas crianças excepcionais precisam ser educados para enxergar a identidade dentro de uma doença percebida; os pais de prodígios confrontam-se com uma identidade e precisam ser educados para reconhecer a possibilidade de doença dentro dela”, diz Solomon. Isolamento, altos níveis de suicídio, a dificuldade implícita na difícil tarefa de escolher entre praticar à exaustão ou desperdiçar um talento são problemas graves e centrais para os gênios e suas famílias.

Os nascidos por estupro fazem o caminho inverso da maioria das outras características abordadas no livro. “As identidades horizontais normalmente se original nos filhos e, a seguir, extravasam para os pais. Aqueles concebidos em estupro, no entanto, adquirem sua identidade horizontal por intermédio do trauma materno”. Solomon ainda trata dos estupros ocorridos durante o genocídio de Ruanda, mazela que gerou os chamados de enfants de mauvais souvenir, ou “crianças das más lembranças”.

As histórias dos transgêneros assustam pela intolerância. Nem todo mundo é capaz de compreender que algumas mulheres têm pênis e alguns homens têm vagina — nasceram em um corpo que não condiz com a maneira como enxergam a si mesmos. Solomon entrevistou famílias cujas filhas que nasceram no corpo de um homem demonstram, desde cedo, sua predileção por vestidos. O contrário também é válido: há a história do menino que nasceu em um corpo feminino e não compreendia por que não podia tirar a camisa quando jogava futebol com os irmãos. A questão não é fácil, uma vez que esbarra em estereótipos de gênero — os gêneros binários, masculino e feminino, com tudo o que isso implica socialmente — que alguns têm tentado derrubar.

Longe da árvore propõe problemas morais extremamente complexos, e encontrar uma resposta para cada um deles parece impossível — talvez A paisagem moral, de Sam Harris, traga algumas respostas importantes quando lido em seguida. Um dos problemas mais incômodos do livro de Andrew Solomon envolve Ashley, uma menina com deficiências graves que foi submetida a uma terapia com hormônios que interrompem o crescimento. Para que não menstruasse e não desenvolvesse seios, Ashley sofreu uma histerectomia e a mastectomia bilateral. A justificativa dos pais parecia plausível: seria mais fácil carregar e dedicar a Ashley os cuidados necessários se ela permanecesse pequena e frágil. Já a ausência de cólicas menstruais a livraria do desconforto físico — e ela era sensível a ponto de um chorar por longos minutos após um espirro. Alguns defendem a ideia de que os pais infantilizaram para sempre a garota. Um grupo chamado Reação Feminista em Ativismo de Deficiência alegou que “não surpreendia que a primeira a receber o ‘Tratamento Ashley’ [a interrupção da puberdade] tivesse sido uma menina, já que as meninas, sobretudo as meninas com deficiência, são consideradas objetos mais fáceis de mutilar e assexualizar”. Alguns se colocaram ao lado dos pais. O mais desconfortável é que todos parecem ter sua parcela de razão.

Seja como for, Longe da árvore é provocativo sem se propor a isso — e Solomon provoca com graça e coragem. “As questões morais enredadas em casos como o de Ashley tornaram-se continuamente mais complexas nos últimos cinquenta anos”, diz ele. E tem razão. O alcance dos exames para encontrar algumas deficiências ainda na gestação e, no caso da detecção de alguma anomalia, a possibilidade de que os pais decidam por um aborto são vistos com desconfiança por alguns grupos. Militantes pró-escolha e militantes em favor das identidades horizontais batem de frente. O próprio Solomon usa a expressão “um cálculo moral sutil” — e todo o seu cuidadoso estudo parece, em certa medida, a exposição desse cálculo espinhoso que poucos desejam enxergar e resolver. De modo geral, no entanto, o que funciona para uma família nem sempre irá funcionar para outra — seja na mesma identidade horizontal, seja em uma identidade horizontal diferente.

Se “identidade” é o primeiro conceito apresentado por Solomon em Longe da árvore, “diversidade” é a palavra que ecoa com força ao final da leitura. Felizmente.

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Booktrailer de Longe da árvore:

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(Todos os grifos nos trechos abaixo são meus.)

“Não existe isso que chamam de reprodução. Quando duas pessoas decidem ter um bebê, elas se envolvem em um ato de ‘produção’, e o uso generalizado da palavra ‘reprodução’ para essa atividade, com a implicação de que duas pessoas estão quase se trançando juntas, é na melhor das hipóteses um eufemismo para confortar os futuros pais antes que se metam em algo que não podem controlar. Nas fantasias subconscientes que fazem a concepção parecer tão sedutora, muitas vezes é nós mesmos a que gostaríamos de ver viver para sempre, e não alguém com uma personalidade própria. Tendo previsto a marcha para a frente de nossos genes egoístas, muitos de nós não estamos preparados para filhos que apresentam necessidades desconhecidas. A paternidade nos joga abruptamente em uma relação permanente com um estranho, e quanto mais alheio o estranho, mais forte a sensação de negatividade. Contamos com a garantia de ver no rosto de nossos filhos que não vamos morrer. Filhos cuja característica definidora aniquila a fantasia da imortalidade são um insulto em particular: devemos amá-los por si mesmos, e não pelo melhor de nós mesmos neles, e isso é muito mais difícil de fazer. Amar nossos próprios filhos é um exercício para a imaginação.”
Filho

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“Os pais têm razão em ter medo por seus filhos transgêneros. O nível do preconceito é inimaginável para quem nunca enfrentou o problema. Em 2009, o Centro Nacional pela Igualdade dos Transgêneros e a Força-Tarefa Nacional de Gays e Lésbicas publicaram uma grande pesquisa sobre transgêneros de todos os estados e territórios dos Estados Unidos, com uma distribuição étnica comparável, grosso modo, à da população em geral. O fato de o questionário ter sido distribuído pela internet leva a crer que ele foi dirigido a indivíduos relativamente privilegiados. Quatro em cada cinco dos entrevistados tinham sido assediados ou atacados na escola, física ou sexualmente, quase a metade deles por professores. Embora quase 90% tenham concluído uma faculdade, contra menos da metade da população em geral, eles tinham o dobro da probabilidade de ficar desempregados. No trabalho, um em cada dez tinha sido sexualmente agredido, e quase a mesma proporção sofrera agressão física. Um quarto deles já tinha sido demitido por não conformidade de gênero. O índice de pobreza entre eles é o dobro do índice nacional. Um quinto deles já tinha sido sem-teto, e destes, um terço tinha sido rejeitado por abrigos por causa do gênero. Um terço já tinha adiado ou evitado atendimento médico por desrespeito ou discriminação dos atendentes. Mais da metade dos jovens trans tinha feito uma tentativa de suicídio, contra 2% da população em geral. Os índices de abuso de substâncias tóxicas e depressão são descomunais. De 20% a 40% de jovens sem-teto são gays ou trans, e mais da metade dos trans negros já se sustentaram pela prostituição. Um trabalhador do sexo num abrigo para meninos trans do Queens, em Nova York, disse: ‘Gosto da atenção, me faz sentir amado’.”
Transgêneros

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“Durante um longo período, Nora, irmã de Marnie Callahan, manteve conversas constantes com Eric Clapton. Morou algum tempo com Marnie, mas um dia esta saiu do quarto, grávida de oito meses, e deu com ela, então aos 24 anos, parada à porta com uma tesoura na mão. “‘Perguntei: ‘O que você está fazendo?’”, recordou Marnie. “Nora respondeu: ‘Não tenho a menor ideia de por que estou aqui. Quem é você?’. Peguei o telefone às sete da manhã e disse: ‘Mamãe, papai, vou levá-la para casa agora mesmo’.” Nos anos subsequentes, Nora morou com a mãe, tomando e parando de tomar os medicamentos até que eles deixassem de ser plenamente eficazes. ‘Por fim minha mãe sofreu um ataque’, contou Marnie. ‘Não posso dizer que Nora o tenha causado, pois minha mãe tinha pressão altíssima, mas não adiantou. Nora a empurrou e ela quebrou o ombro. Assim, fui ao estado do Maine e solicitei a tutela. Conversava com Nora ou fazia coisas ligadas a ela quatro ou cinco vezes por dia.’ Agora, aos 53, Nora está em domicílio assistido, mas mantém a irmã informada de seus contatos com Eric Clapton. No entanto, boa parte do que ela foi sobrevive no seu eu perturbado e perturbador. ‘Nora vê as pessoas com tanta clareza’, contou Marnie. ‘É quase como se, na nossa ordem social, tivéssemos aprendido a mascarar e esconder. Os esquizofrênicos passam ao largo disso. Apesar do seu comportamento brigão e do contra, ela simplesmente tenta sobreviver, como todos nós. Não posso abandoná-la Visito-a em seu apartamentozinho, e mesmo com toda a sua dor ela continua com essa luta dentro de si. Ainda tenta ter dignidade no dia a dia. Um arranjo de flores aqui, uma coisinha bonita ali. Um pequeno toque criativo. Isso não morre.”
Esquizofrenia

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“O extraordinário é um jogo de azar. Pode-se discutir se uma coisa extraordinária é boa ou má, mas não se pode chegar a uma conclusão aceitável sobre se ela ou não extraordinária — embora a palavra esteja sujeita a intermináveis reivindicações indevidas. Pessoas comuns insistem em ser especiais, enquanto pessoas extraordinárias afirmam que são como quaisquer outras. Pessoas medíocres gostam de ser vistas como notáveis, enquanto pessoas excepcionais anseiam pela comodidade da adequação. Todos aqueles cujos bebês são normais falam das coisas especialíssimas que os filhos fazem, e todos cujos bebês são inequivocamente peculiares explicam por que uma doença grave ou dotes assombrosos na verdade não criam um abismo entre seus filhos e outras crianças. Essa falsificação de mão dupla espelha uma ambivalência maior: ao mesmo tempo, desejamos e rejeitamos a diferença. Queremos e tememos a individualidade. As diferenças mais desafiadoras de um filho em relação aos pais se manifestam, por definição, em áreas pouco familiares a estes. Nossa tendência de representar os filhos como mais ou menos originais do que de fato são reflete nossos equívocos sobre a relação entre individualidade e felicidade.
(…)
Em termos ideais, a aceitação total permite que as crianças se tornem elas mesmas com plenitude. No seio da própria família, nanismo, autismo, prodigiosidade ou transição de gênero podem ser secundários. Em termos ideais, essas pessoas são, acima de tudo, filhos de seus pais, cidadãos plenamente identificados da pequena nação que é a família. Os pais não precisam apenas amar seus filhos apesar de seus defeitos, mas podem encontrar uma surpreendente correção nessas imperfeições. Um sábio psiquiatra me disse certa vez: ‘As pessoas querem melhorar, mas não querem mudar’. Mas eu diria que só permitindo que as pessoas nascidas com uma identidade horizontal
não mudam elas se tornam melhores. Qualquer um de nós pode ser uma versão melhor de si mesmo, mas nenhum de nós pode ser outra pessoa.”
Pai