Depois de molhar os pés, mergulhe de cabeça

Depois de molhar os pés, mergulhe de cabeça

 

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Chapéus. Minha avó detestava chapéus. Não só não usava chapéus como não podia ver outras pessoas usando chapéus. Vendo, queria manifestar a indignação. Não poupava ninguém. Começava com um “Olha lá…” e, pelo tom de voz, mesmo sem ter espiado na direção que ela indicava com o queixo, eu sabia que a frase terminaria com um “…aquele chapeuzinho”. As palavras não mudavam e não eram ditas num sussurro. Ela tampouco berrava, mas falava em alto e bom som, e não raro o dono ou dona do chapéu, que minha avó encarava com o maior dos sorrisos, mas um sorriso de desdém, e com uma risadinha à la Mutley, enfim, não era raro que ele ou ela ouvisse o comentário e devolvesse um olhar desconfiado, constrangido ou ofendido. Provavelmente a tomavam por uma velha senil, a única explicação para o silêncio que se seguia. Nunca uma resposta grosseira, nunca uma pergunta indignada. Mas não era. Senil. Minha avó acordou um dia e decidiu que sua paciência para chapéus havia terminado e, ainda que não fosse lá uma coisa muito gentil ou produtiva, uma vez que cada um tem a liberdade de usar o que bem entender para enfeitar o que quer que seja, era algo inofensivo. Não havendo agressão física nem nada além de um comentário genérico, ainda que desnecessário, não fazia sentido acabar com a alegria de uma senhora que odiava chapéus. Quando ninguém estava olhando, eu ria junto. Sempre gostei de chapéus, mas gostava mais da minha avó.

O gigante enterrado – Kazuo Ishiguro

O gigante enterrado – Kazuo Ishiguro

 

Dez anos depois do flerte com a ficção científica em Não me abandone jamais, Kazuo Ishiguro retorna com uma trama que investiga as possibilidades do fantástico. Como em qualquer livro do gênero, os episódios descritos em O gigante enterrado transcorrem em uma dimensão paralela, meramente próxima da realidade como a conhecemos. Fadas, ogros e dragões circulam com desembaraço. O lendário rei Arthur e seus cavaleiros, além do fiel mago Merlin — figuras aperfeiçoadas e enriquecidas pelos escritores ao longo dos anos —, são, no enredo de Ishiguro, personagens que descobriram uma forma canhestra de frear as hostilidades entre saxões e bretões. Consequentemente, não é difícil situar os acontecimentos do romance em um ambiente que lembra a Grã-Bretanha entre o final do século 5 e o início do século 6 — tempo e espaço que, embora sirvam para regular certos detalhes, poderiam facilmente encontrar substitutos à altura, mais ou menos remotos, uma vez que o contexto, com tudo o que carrega de mítico e de factual, não é nada além de um meio a serviço de um fim bem marcado.

Meus documentos – Alejandro Zambra

Meus documentos – Alejandro Zambra

 

Até então era Bonsai, o primeiro livro do chileno Alejandro Zambra publicado pela Cosac Naify, o favorito dos leitores brasileiros. A vida privada das árvores e Formas de voltar para casa foram bem recebidos, mas Bonsai, pelo que se podia observar, permanecia no topo. Permanecia. Meus documentos, que tira Zambra da lista dos jovens promissores e o coloca definitivamente entre os grandes autores, tem méritos suficientes para desbancar o número um do público — favoritismo que, no geral, tem o endosso da crítica.

Os mil outonos de Jacob de Zoet – David Mitchell

Os mil outonos de Jacob de Zoet – David Mitchell

 

O ano é 1799. Relutante, o Japão mantém seus portos abertos para o comércio com os estrangeiros. Jacob de Zoet, um zelandês na casa dos vinte anos, desembarca em Dejima, a feitoria da Companhia Holandesa das Índias Orientais erguida a poucos metros de Nagasaki, a fim de ocupar o posto de escriturário. Ruivo, o que faz dele uma atração, De Zoet é chamado de komô, “bárbaro de cabelo vermelho”, pelos japoneses. Seu sobrenome vira “Dazûto” na pronúncia local.

Toda luz que não podemos ver – Anthony Doerr

Toda luz que não podemos ver – Anthony Doerr

 

Não é difícil encontrar semelhanças entre Toda luz que não podemos ver, vencedor do Pulitzer de ficção de 2015, e O pintassilgo, o premiado de 2014. (a) Como no romance de Donna Tartt, algumas das ações decisivas do livro de Anthony Doerr se passam em um museu — não o Metropolitan Museum of Art, mas o Museu de História Natural de Paris. (b) Objetos de valor incalculável cuja proteção e preservação são preocupações constantes de certos personagens (enquanto outros se deixam levar pela cobiça) estão no centro de ambas as tramas. Se Tartt escolheu o quadro de Carel Fabritius, Doerr apresenta um diamante batizado de Mar de Chamas. A peça, em formato de lágrima, deixaria entrever um matiz avermelhado sob o azul predominante. (c) A figura de um órfão, que convém a enredos com forte apelo emocional, está presente em um e em outro. Se o órfão de Tartt é o protagonista e narrador, o de Doerr é um dos dois personagens principais do romance.

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