O Cortiço, de Aluísio Azevedo: O Naturalismo Brasileiro em sua Expressão Mais Viva
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Entre os muitos marcos da literatura brasileira do século XIX, poucos livros se destacam tanto quanto O Cortiço, de Aluísio Azevedo . Publicado em 1890, o romance é considerado o ápice do naturalismo no Brasil, movimento literário que buscou retratar a realidade a partir de uma perspectiva científica, determinista e muitas vezes crua, expondo os aspectos mais viscerais da sociedade e do comportamento humano. O Cortiço não só exemplifica esses princípios, como também se tornou referência para a compreensão das complexas relações sociais, raciais e econômicas do período.

Contexto Histórico e Literário
O naturalismo surge na Europa, sobretudo na França, a partir das obras de Émile Zola, como uma radicalização do realismo. Essa escola literária propunha retratar o ser humano como resultado do meio, da hereditariedade e das condições socioeconômicas. No Brasil, o naturalismo encontrou terreno fértil em uma sociedade marcada pela escravidão recém-abolida (1888), pela urbanização acelerada e pelas tensões sociais resultantes das transformações políticas e econômicas.
Aluísio Azevedo, atento a esse contexto, constrói em O Cortiço um microcosmo da sociedade carioca do fim do século XIX. Seu olhar é quase clínico, por vezes impiedoso, ao dissecar as relações entre os personagens e o ambiente em que vivem.
O Espaço do Cortiço: Um Personagem Coletivo
O cortiço, mais do que cenário, é protagonista. Azevedo descreve a construção do cortiço de João Romão como um organismo vivo, pulsante, que cresce, se transforma e influencia os indivíduos que nele habitam. Essa coletividade é fundamental para o naturalismo, pois dilui a individualidade em prol do grupo, evidenciando como as forças externas moldam o destino das pessoas.
O cortiço é um espaço de promiscuidade, trabalho árduo e esperança; um ambiente onde os sonhos se misturam à miséria. Ali, convivem imigrantes portugueses, negros recém-libertos, mestiços e pobres de diferentes origens. Cada personagem é, em alguma medida, resultado das pressões desse espaço – suas ambições, frustrações e comportamentos são determinados pelo ambiente hostil, pela competição e pela luta diária pela sobrevivência.
Personagens: Determinismo e Animalização
A galeria de personagens de O Cortiço é vasta e plural. João Romão, o dono do cortiço, é o exemplo acabado do self-made man, que ascende socialmente às custas da exploração do trabalho alheio e da acumulação implacável de riqueza. Sua trajetória é marcada pelo embrutecimento, pela avareza e pela incapacidade de sentimentos elevados – características que, segundo a ótica naturalista, derivam tanto da herança quanto do meio.
Bertoleza, sua companheira, é uma ex-escrava que representa a face mais sofrida da sociedade brasileira: a mulher negra, subjugada e explorada. Sua tragédia pessoal é emblemática das contradições e injustiças da época. Outros personagens, como Pombinha, Rita Baiana, Jerônimo e Firmo, compõem um mosaico de tipos sociais, cada qual representando um aspecto da vida no cortiço.
O romance é célebre por sua linguagem direta e pelas descrições que frequentemente animalizam os personagens, associando seus impulsos e comportamentos à esfera instintiva. O sexo, a violência, a fome e a sede de poder são apresentados como pulsões inevitáveis, com pouca margem para escolhas racionais ou morais. O determinismo, marca do naturalismo, está sempre presente: não há espaço para o livre-arbítrio, pois todos estão sujeitos às leis implacáveis do meio e da hereditariedade.
Questões Sociais e Raciais
O Cortiço é, também, um retrato contundente das tensões sociais e raciais do Brasil pós-abolição. A convivência forçada entre diferentes etnias e classes revela preconceitos, disputas e alianças temporárias. Azevedo não poupa críticas ao racismo, à hipocrisia social e à exploração do trabalho, sobretudo do negro e do imigrante.
O romance destaca como a sociedade brasileira, mesmo após o fim da escravidão, perpetua mecanismos de exclusão e desigualdade. Bertoleza, ao ser enganada por João Romão e privada de sua liberdade, simboliza a persistência da opressão racial. Ao mesmo tempo, a ascensão social de personagens como João Romão demonstra que, embora difícil, a mobilidade é possível – mas quase sempre à custa da ética e da solidariedade.
Estilo e Inovações Narrativas
Aluísio Azevedo emprega uma linguagem objetiva, por vezes brutal, para dar conta da realidade que deseja retratar. Suas descrições do cortiço, dos corpos, dos hábitos e dos costumes são minuciosas e realistas, sem idealizações. O autor utiliza recursos como a metáfora do organismo vivo para o cortiço, a animalização dos personagens e a alternância entre cenas individuais e coletivas, conferindo dinamismo à narrativa.
Outra inovação importante é o foco no coletivo. Ao contrário de muitos romances do período, que privilegiavam protagonistas individuais, O Cortiço dilui a centralidade do herói para dar lugar ao grupo. O cortiço, como entidade viva, é o verdadeiro protagonista, e os indivíduos são peças de um grande mecanismo social.
Legado e Atualidade
Mais de 130 anos após sua publicação, O Cortiço permanece atual. Em uma sociedade ainda marcada por desigualdades profundas, o romance de Aluísio Azevedo nos convida a refletir sobre o papel do ambiente, das condições sociais e do racismo estrutural na formação do indivíduo. Sua leitura é fundamental para quem deseja compreender não só a literatura brasileira, mas também as raízes de muitos de nossos dilemas contemporâneos.
Assim, O Cortiço se mantém como um dos maiores exemplos do naturalismo brasileiro, uma obra que desafia, inquieta e emociona, ao mesmo tempo em que nos faz pensar criticamente sobre o Brasil de ontem e de hoje. Por tudo isso, sua leitura é indispensável para estudantes, professores e amantes da literatura.