Exploradores do abismo – Enrique Vila-Matas

Exploradores do abismo – Enrique Vila-Matas

“Meus detratores também me recriminavam por eu ter mitificado tanto o literário”, escreve Enrique Vila-Matas em uma das narrativas de Exploradores do abismo. A afirmação não parte do próprio autor, ou, se parte, ele está perfeitamente oculto no personagem do conto, bem de acordo com suas convicções. Difícil apontar o que é confessional e o que é apenas ficção — a linha que os separa nem sempre é clara. Mas é certo que Vila-Matas foi alvo de algum escárnio por supervalorizar o literário e abusar das referências (que, de todo modo, nunca se limitaram a escritores e poetas).

exploradores do abismoA extensa obra de Enrique Vila-Matas, e sobretudo a provocação explícita em Exploradores do abismo, podem ser pensadas a partir do ensaio mais famoso do crítico de arte Clement Greenberg, Vanguarda e kitsch. Mesmo com as óbvias diferenças entre os cenários de 1939, quando o ensaio foi publicado pela primeira vez, e o atual, continuam valendo a maioria das afirmações que estão ali. Para explicar o fenômeno do título — a vanguarda e o kitsch — de forma clara e objetiva — mais clara e objetiva do que boa parte daqueles que se atreveram a desenvolver o assunto posteriormente —, Greenberg coloca a literatura e as artes visuais em pé de igualdade. “Picasso, Braque, Mondrian, Moró, Kandínski, Brancusi, até mesmo Klee, Matisse e Cézanne tiram sua principal inspiração do meio no qual trabalham”. Guardadas as diferenças que separam um século e outro, é isso o que Vila-Matas tem feito durante sua carreira.

A vanguarda, de acordo com Greenberg, apresenta “algo válido somente em seus próprios termos”. É mais ou menos o que acontece em romances como História abreviada da literatura portátil ou O mal de Montano. “Ao desviar sua atenção do tema da experiência comum, o poeta ou artista se volta para o meio de seu próprio ofício”, escreve Clement Greenberg no ensaio. “Essa limitação, uma vez que se renunciou ao mundo da experiência comum externa, só pode ser encontrada nos próprios processos ou disciplinas através dos quais a arte a arte e a literatura já o imitaram. Eles mesmos tornam-se o tema da arte e da literatura”, diz.

No momento em que Greenberg volta o foco exclusivamente para a literatura, no entanto, não é mais possível encontrar um paralelo com Vila-Matas: “Mas, à parte o fato de que a maioria dos nossos melhores romancistas contemporâneos frequentou a escola com a vanguarda, é significativo que o livro mais ambicioso de Gide seja um romance sobre a escritura de um romance e que Ulisses e Finnegan’s Wake, de Joyce, pareçam ser, acima de tudo, como diz um crítico francês, a redução da experiência à expressão em nome da expressão, importando mais a expressão do que o que está sendo expresso.”

Não é bem o caso do autor catalão. Como fica claro em Conversas apócrifas com Enrique Vila-Matas — escrito pelo crítico Kelvin Falcão Klein e publicado pela Modelo de Nuvem, o livro é um excelente ponto de partida para entender os mecanismos e influências do autor —, Vila-Matas opera com colagens de vários autores. Coleta e usa indiscriminadamente versos, trechos e referências de outros artistas. Nada define o trabalho de Vila-Matas tão bem quanto a frase precisa de Greenberg, que expressa a característica principal das vanguardas — “a imitação do ato de imitar”. O autor de Doutor Pasavento está tão preocupado com a forma — o efeito geral de sua colagem — como com o conteúdo. Essa dupla jornada que deve ser feita para que se chegue a bom termo com seus livros — decifrar a insinuação, depois o modo como ela foi inserida no contexto — pode esclarecer o porquê de Vila-Matas não ser exatamente um autor de best-sellers: “A especialização da vanguarda nela mesma, o fato de que seus melhores artistas são artistas de artistas, seus melhores poetas, poetas de poetas, afastou uma grande quantidade daqueles que anteriormente eram capazes de desfrutar e apreciar a arte e a literatura ambiciosas, mas que agora não mais desejam ou são incapazes de adquirir uma iniciação nos segredos de seu ofício”, escreve Greenberg.

A relação que Clement Greenberg procura estabelecer entre arte visual e literatura de vanguarda não é infundada. O próprio Vila-Matas — ou seu alter ego —, ao falar de certo livro de contos, que pode ser aquele que o leitor tem nas mãos ou um muito semelhante a ele, aceita e brinca com o rótulo de cubista: “[o livro contém] contos que de alguma forma poderiam ser qualificados de ‘cubistas’ (…) porque às vezes compartilham com esse movimento artístico o gosto por ampliar as dimensões de certos espaços e fugir da fixa perspectiva clássica, permitindo que, mais cedo ou mais tarde, a sombra de um ou outro explorador de abismos os atravesse”, escreve em “Café Kubista”, narrativa que abre o livro. Assim como a arte abstrata, a compreensão das partes e do todo de Exploradores do abismo não é algo que se dê de imediato. É uma escavação contínua que exige uma ativa combinação de significados, analogias, equivalências e influências. Se, como numa citação de Fitzgerald utilizada num conto, a vida seria “um processo de demolição”, também em Exploradores do abismo a coisa funciona mais ou menos assim. O leitor deve estar munido de uma ferramenta para desmontar e analisar as referências internas e externas.

Toda essa discussão só faz sentido porque Vila-Matas propôs, deliberada e astutamente e a partir de Exploradores do abismo, uma discussão em torno da própria obra. O narrador de certos relatos — justamente aqueles que parecem autobiográficos, ainda que cair nessa explicação seja tão tentador quanto perigoso — teria tido um “colapso físico”. Depois da doença, se torna outro — que aparentemente é uma pessoa melhor, ou mais curiosa e ansiosa por descobrir e explorar vários tipos de abismos. O escritor que narra “Café Kubista”, um dos que teria enfrentado o tal colapso, decide retornar aos contos depois de anos de dedicação aos romances. É esse narrador quem diz, fazendo uma diferenciação entre seu eu de antes e depois da enfermidade: “Ele parecia ter chegado a um beco sem saída, a um abismo final e aos limites da literatura, e eu, por minha vez, sem tanto drama, simplesmente já me sinto fora daqui e optei por dar mais um passo e voltar meus olhos para outros espaços, transformar-me num explorador desse famoso abismo que parecia lhe fechar todas as saídas”. Soa como uma voz muito próxima a Vila-Matas.

Os personagens dos contos empreendem diversos tipos de buscas (que depois podem se revelar ilusórias e acessórias, mero, mas interessante, recurso para despistar o leitor). Vazio e abismo são palavras insistentemente repisadas, como mostram os excertos, cada um retirado de uma narrativa: 1. “Mas como alguém se debruça num espaço vazio?”; 2. “Decidiu que se moveria nas fronteiras do vazio, tentaria ver o que aconteceria se resolvesse debruçar-se no abismo.”; 3. “Como se, na verdade, em vez de viajar, eu não fizesse outra coisa senão despencar por um opaco firmamento infinito, sem avançar. Como se, viajando em linha reta na escuridão, estivesse me jogando no vazio, e aí acabasse o trajeto, e ainda por cima sem saber quando acabará realmente.”; 4. “Fui além de todos os abismos.”; 5. “A partir daquele momento, enfrentaria diretamente a verdade e suportaria o vazio e, portanto, aceitaria a morte.”; 6. “Bernhard sempre compartilhou com Gould o desejo de se blindar perante o mundo e explorar a sós os vazios de seu universo singular.” 7. “Acontece que bocejar operou um pequeno milagre e fez com que eu mesmo me dilatasse e me fendesse como um abismo e que também me mimetizasse com o vazio.”

Como escreve Daniel Pellizzari no texto de orelha, Exploradores do abismo “se equilibra em dois eixos: o mergulho na realidade e o abandono à ficção”. A linha, de qualquer forma, nem sempre fica evidente. A intenção de Vila-Matas é que uma e outra se misturem todo o tempo. São dezoito textos e um epílogo de tamanhos variados — e, o que é mais importante, que dialogam entre si.

A ligação entre “Das tripas coração” e “Matéria escura” é o melhor exemplo do que Enrique Vila-Matas propõe em Exploradores do abismo. No primeiro, um escritor que se parece muito com o próprio Vila-Matas — dado a exercícios metaliterários e coisas do tipo — comenta o quão difícil lhe parece a prática de abordar trivialidades em seus livros. Mesmo assim, topa o desafio de mudar de estilo ou tema. “Dediquei-me a falar de seres comuns e vulgares”, escreve. Cria, então, um casal ordinário que discute por qualquer bobagem. Esse casal, com “carne, nariz e osso em demasia”, parece retornar como uma provocação em “Matéria escura”, um conto em que Deus é vizinho de apartamento do homem e da mulher e acompanha suas brigas ridículas. No conto, Deus, que bem pode ser a própria figura do autor, controla as vidas dos personagens e demais criaturas através de potentes computadores. Há uma frase significativa que é quase idêntica nos dois contos: “gosto de ver pessoas que ainda são humanas, que são como pobres cobaias que repetem os mesmos erros de todas as pessoas que já passaram pelo mundo”. No primeiro relato, quem diz isso é um escritor frustrado; no segundo, Deus.

>Em “Iluminado” um homem relembra uma sequência de dias caóticos — período em que, aos dez anos, sentiu que sua infância foi interrompida. Um personagem secundário, o estranho garoto que encosta a cabeça em bancos e paredes para receber mensagens do pai morto, lembra o Vilnius Lancastre em Ar de Dylan. “A modéstia” mostra um pai de família que, ao ir e voltar do trabalho, se ocupa recolhendo frases e expressões que escuta no ônibus. Sua rotina é levemente alterada quando, no mesmo ônibus de sempre, ouve uma mulher que fala ao telefone se descrever como “nem bonita e nem feia”. Sua modéstia o deixa imediatamente inquieto. Ele próprio, em todo caso, não é nada modesto. “Menino” é um dos melhores contos do livro. O Menino do título está prestes a completar seu sexagésimo ano de vida e prestes também a passar por uma cirurgia delicada. Seu pai, narrador do conto, octogenário, relata as decepções que o filho lhe trouxe ao longo da vida — e, algo chocante, deseja sua morte. Menino parece obcecado pelos mistérios metafísicos, postura que logo se revela uma farsa. Seu interesse constante seria uma forma de enganar o pai e manter-se longe das obrigações práticas da vida. “Os autistas são assim”, um dos mais amalucados, é outro destaque de Exploradores do abismo. Um sujeito, apontado como autista e obcecado por plateias vazias, precisa encarar dois novos acontecimentos em sua vida. Sofre uma cirurgia e, em seguida, acredita que ganhou uma viagem para Estocolmo. A partir disso, sua vida muda um tanto.

“O dia assinalado” traz uma protagonista do sexo feminino (e Vila-Matas prova que consegue passar credibilidade ao dar voz a uma mulher). Isabelle Dumarchey ainda é criança quando escuta de uma cigana de feira as condições em que deverá morrer — a cigana só não diz se a ocasião se apresentaria em um futuro próximo ou não. Isabelle passa boa parte da vida obcecada com o que ouviu, até um acontecimento catastrófico que soa como uma espécie de redenção. “Fora daqui” é uma tentativa bem-humorada de reproduzir um conto russo no melhor estilo tchekhoviano (para marcar a referência, e talvez de forma um tanto óbvia, Vila-Matas faz questão de citar o autor de O jardim das cerejeiras). Com o excelente nome de Andréi Petróvich Petrescov, sempre grafado de forma completa, o protagonista, um burocrata cansado, viúvo, enfrenta um dilema familiar dos mais penosos.

O protagonista de “Exterior de luz” lê e cita o peruano Julio Ramón Ribeyro, ainda que no conto de Vila-Matas o autor tenha passado a se chamar Juan Ramón Ribeyro. O foco são os encontros fortuitos que acontecem de vez em quando. “Amei Bo”, que repisa a obsessão do autor pelo contraste entre as cores preta e branca, é um dos contos mais fantásticos do livro. Num futuro não muito próximo, um aeronauta parte de um planeta desconhecido com a intenção de chegar a Nova York. Algo dá errado, e a nave acaba entrando em uma rota despropositada rumo ao nada. O aeronauta passa anos e anos preso na nave, vendo seus companheiros — incluindo Bo, que ele amou — morrerem. Sua sorte muda quando chega a Kajada (do espanhol “carcajada”, gargalhada), um planeta peculiar. O humor é essencial em Kajada. Seus habitantes “vivem em perfeita sintonia com a risada e a grande gargalhada do universo”. O que Vila-Matas sustenta em “Amei Bo” é que o humor, mais ainda do que o amor, é “a verdadeira essência do cosmo”, a arma infalível contra a falta de sentido. (O conto coloca uma questão inquietante, ainda que não em forma de pergunta explícita: em dado momento, o protagonista afirma que nas narrativas “tudo é tão simples, organizado”, quando, pelo contrário, nada no conto parece minimamente claro ou ordenado. O narrador chega a se referir à “simplicidade que só existe quando contamos uma história, quando definitivamente narramos algo”.)

“Café Kubista”, o relato de um escritor que encontrou uma espécie de paz, parece fornecer pistas para desvendar o próprio livro. “Outro conto hassídico” não traz nada além de um pequeno excerto de um conto de Kafka — que funciona de maneira autônoma em Exploradores do abismo.  outros relatos igualmente breves, de uma ou duas páginas, como “Vida de poeta” (abaixo, completo).

“Porque ela não pediu isso”, que ocupa cerca de 60 páginas, é a narrativa mais longa do livro. De acordo com uma explicação do próprio Vila-Matas em seu site oficial, o conto “sintetiza muito bem meu trabalho atual [de 2007, ano em que o livro foi originalmente lançado]”. Desenvolvendo a afirmação, o autor escreve que “[o relato] serve para responder àqueles que me perguntam de que tratam meus livros. Porque é possível que para entrar em minha obra, o melhor primeiro passo seja ler esse conto, onde Sophie Calle tem uma atuação estelar”. Sophie Calle teria pedido a um autor, que pode ou não ser Enrique Vila-Matas, que escrevesse uma história que ela pudesse viver — transpor para a realidade. A relação dos dois, que começa de forma um tanto gratuita, acaba evoluindo para um bizarro jogo de poder que lembra vagamente o de um casal. A cada novo pequeno capítulo, Vila-Matas move ou apaga a linha que divide ficção e realidade, além de subverter as próprias bases do conto. Como defende o narrador de “Porque ela não pediu isso”, a arte não é sensata, “nunca foi, ao contrário, sempre foi como uma bomba contra o senso comum e uma tentativa de ir além de certas sendas já trilhadas”.

O último, “A glória solitária”, está mais para o ensaio do que para o conto. Nele, Enrique Vila-Matas escreve sobre a solidão do artista, necessária, segundo ele, para a manutenção do impulso criador. O autor insere a ficção apenas no final, ao mencionar o equilibrista Maurice Forest-Meyer e a misteriosa Delia Dumarchey, duas invenções suas que dão as caras em outras narrativas do livro. De todo modo, há dois trechos — ambos retirados de “Café Kubista”, o primeiro relato do livro — que dão uma pista sobre aquilo que se está prestes a ler: 1) “Vou pensando que um livro nasce de uma insatisfação, nasce de um vazio, cujos perímetros vão se revelando no decorrer e no final do trabalho. Escrever, certamente, é preencher esse vazio. No livro que terminei ontem, todos os personagens acabam sendo exploradores do abismo, ou melhor, do conteúdo desse abismo. Perscrutam o nada e não param até dar com um de seus possíveis conteúdos, pois decerto não gostariam de ser confundidos com niilistas. Todos eles adotaram, como atitude diante do mundo, encarar o vazio. E estão ligados, sem sombra de dúvida, a uma frase de Kafka ‘Fora daqui, este é o meu objetivo’.”

2) “Meus exploradores são otimistas e suas histórias, em geral, são as de pessoas comuns que, ao se ver à beira do precipício fatal, adoram a postura do expedicionário e sondam o horizonte plausível, perguntando-se o que pode haver fora daqui, ou além de nossos limites. Essas pessoas não são especialmente modernas, pois em geral desdenham o tédio existencial tão em voga, parecendo, antes, gente antiquada e muito ativa, que mantém uma relação desinibida e direta com o vazio. Em alguns casos esse abismo é o centro do conto que protagonizam; em outros, bem diferentes, o vazio oide ser apenas um bom pretexto para se escrever um conto.

Exploradores do abismo, que não chega a ser um jogo impenetrável ou angustiante, propõe, de uma forma ou de outra, um bom desafio. Se para quase todos os personagens há uma espécie de flerte com o vazio, se há divagações ontológicas que partem de diferentes questões, para o leitor isso fica em segundo plano. Vila-Matas apenas simula esse mote — ou seja, parece um engano pensar que os contos tratam única ou primordialmente dessa busca. Eles continuam a tratar daquilo que sempre foi o tema central para o autor: a própria literatura e sua fronteira com a realidade.

O que Vila-Matas propõe — mais uma vez — é que se encare um abismo peculiar, que se entre em uma discussão muito antiga, embora nem tão antiga quanto aquela iniciada por Parmênides. O que Vila-Matas procura fazer com que o leitor enxergue, como ele mesmo escreve um dos contos, pode ser resumido como “essa tensão entre literatura e vida”, que teria sido, “desde o primeiro momento, desde Cervantes, o tipo de debate que o romance desenvolveu. Na verdade, o que chamamos de romance é esse debate”. Com Vila-Matas, mais do que nunca, isso é inteiramente verdade.

Seu leitor deve providenciar algumas ferramentas, possivelmente a curiosidade e a paciência, para desconstruir Exploradores do abismo e ver como ele funciona. E para citar novamente o texto de orelha de Daniel Pellizzari — “Boa sorte”.

Nunca vou esquecer aquela visita a Ronda. Fui para lá quando era adolescente, com meus pais e meus irmãos, numa dessas viagens familiares tão comuns na década de setenta. Era a época em que o país começava a prosperar economicamente e as famílias de classe média, como a minha, compravam automóveis modestos e se entregavam a um tímido turismo por terras de Portugal e Espanha. Não esquecerei a visita a Ronda, onde morava um tio distante da família de minha mãe. Trava-se de um homem seco e introspectivo, velho republicado, professor num instituto da cidade, um homem com um discurso pavorosamente antiquado, muito encarquilhado. A família dizia que ele levava uma vida de poeta. Parecia obcecado pela poesia de Rilke, e meus pais e irmãos ouviam-no com estranheza. Nós não tínhamos interesse por poesia, saíamos de uma difícil luta pela sobrevivência nua e crua e não estávamos para fiorituras nem loucuras. O poeta, com seu ar envelhecido e seu discurso arcaico, não parecia perceber nada disso e nos falava repetidamente de Rilke, que passara uma longa temporada em Ronda, inspirando-se todas as tardes no Puente Nuevo, olhando sempre dali para o impressionante precipício que os moradores de Ronda chamam de El Tajo.
Ao entardecer, me afastei um pouco do grupo familiar e fiquei debruçado, por um momento, no espantoso promontório que dá para o vazio no centro de Ronda e a cujos pés se estende o vale fechado por montanhas. O poeta não demorou a se aproximar e me perguntou se eu gostava daquela vista tão imponente. Eu disse, com com minhas palavras de adolescente, que meu olhar era atraído exclusivamente para aquela pavorosa queda de cem metros, para o soberbo precipício. Então o homem, imprimindo a sua voz uma súbita grandeza, sussurrou-me estas palavras no ouvido, como quem transmite um segredo herdado de geração em geração e felizmente preservado:
— As obras de arte, escassas, dão conteúdo intelectual ao vazio.
Nunca esqueci sua frase. Soou como um prolongamento de seu discurso vagamente tresnoitado, mas me abriu os olhos e sempre pensei que me salvou a vida.
Vida de poeta

4 Comentários Exploradores do abismo – Enrique Vila-Matas

  1. v.

    Essa coisa da metaficçao do vila-matas me da um tesao absurdo. Gosto muito da forma como ele faz, como se, ao se embrenhar nas referencias, ele se deliciasse com o que escreve e com a possibilidade de fazer o leitor persegui-lo nesse labirinto. Gosto muito desse cara. 🙂

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    1. camilakehl

      EXATO, também tenho essa sensação. Sem contar que isso acaba motivando um movimento pra fora do livro, porque a gente acaba lendo alguns livros que ele cita.

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  2. Pingback: Vida querida – Alice Munro | Livros abertos

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