E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha

E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha

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[Leia a entrevista com o autor.]

meia-noite-e-vinte

Ao longo de Gramáticas da criação, um dos livros mais controversos do crítico franco-americano George Steiner, é possível encontrar perguntas e respostas sobre certa arte contemporânea, incluindo a literatura — uma literatura que, sobretudo a partir da segunda metade do século passado, procura assimilar novas linguagens, novas formas de comunicação e novas maneiras de estar no mundo, nem todas reconfortantes. A argumentação de Steiner não é invulnerável: algumas das manobras parecem forçadas, quando não gratuitas. É comum vê-lo relacionar pensadores e conceitos aparentemente distantes, num discurso que tende a se aproximar de uma tradição de investigação mais aberta à criatividade e à livre associação. Não é preciso concordar com os atalhos e com o destino final do livro, porém, para compreender que o que Steiner diz é valioso. Nas últimas décadas, começa ele, o pensamento ocidental tem sido fortemente influenciado por “percepções muito mais ligadas ao poente e ao crepúsculo”.

Insidiosa mas implacavelmente, essas percepções se infiltram na gramática. Como outros autores, Steiner entende por gramática “a organização articulada de uma percepção, uma reflexão ou uma experiência”. Daí deriva, num salto lógico, também a literatura.

A obsessão pelo poente e pelo crepúsculo intuída por Steiner, que é atravessada e se deixa atravessar pela gramática, conduziria inevitavelmente a uma “época de transição rumo a novas cartografias e novas formas de se contar uma história”. Nascido em 1979, Daniel Galera é um dos primeiros ficcionistas brasileiros a arriscar essa transição específica, pondo em marcha, numa manobra que acaba por reunir e vincular diferentes elementos observados e previstos por autores como Steiner, não só a dúvida ou o temor em relação ao futuro, mas também a abertura ao novo. Meia-noite e vinte, publicado há poucas semanas pela Companhia das Letras, é inovador não no trato com a linguagem — no que é tradicional —, mas na combinação de temáticas, no mero fato de articular aquilo que em um primeiro momento não parece ter relação, e, no que se aproxima de um romance de ideias, de se mostrar consciente do quê e de como articula. Longe de se limitar ao pessimismo, o livro questiona como outras formas de comunicação moldam ou afetam a criação artística. E é aqui que Galera acerta.

Meia-noite e vinte é hábil ao traduzir um pessimismo que “começava a espalhar seus tentáculos pela sensibilidade de gente adulta e esclarecida”, mas se limitar a ele poderia ser uma saída fácil. Todo o livro é mais do que isso, o que o título já antecipa: meia-noite e vinte marca um dia que acabou de começar, ainda que o anterior tenha se encerrado há meros vinte minutos. Serve como metáfora para o novo século.

Um escritor de relativo prestígio, Andrei Dukelsky, o Duque, é morto em Porto Alegre durante um assalto. A morte pesa sobre os três narradores, velhos amigos de Duque: Antero, um publicitário deslocado; Emiliano, um jornalista frustrado com a própria profissão; e Aurora, uma bióloga prestes a concluir o doutorado. No final dos anos 1990, quando a realidade individual e coletiva parecia um tantinho mais promissora, os quatro editam um zine pioneiro, o Orangotango. Galera resgata algo da experiência no Cardosonline, um zine de sucesso de que participaram os também escritores Daniel Pellizzari e Clara Averbuck.

Em capítulos alternados, cada um dos três personagens descreve não só a reação à morte de Duque, mas também os próprios dilemas. Num cenário ora incerto, ora abertamente desolador, as derrotas e decepções pessoais são amplificadas, tendo um impacto mais profundo. Seguem-se algumas dúvidas existenciais sem forma, um punhado de dilemas éticos específicos, as disputas (nesse caso, marcadas pelo machismo) acadêmicas. A aparição e o sumiço de um narrador é um lampejo breve: dura o tempo em que um personagem demora para consolidar a própria voz e deixar uma marca, que por sua vez se articula com a do outro, e esmorecer. De Duque, nada.

Vários detalhes atestam que Meia-noite e vinte está mais próximo de um futuro incerto do que do ano de 2014 que procura retratar. Alguns dos personagens, por exemplo, demonstram uma expressão de gênero (Francine, a namorada de Duque) e de sexualidade (Emiliano) mais fluidas e instintivas, menos afeitas ou redutíveis a noções de identidade. O principal, no entanto, é a maneira como o livro questiona o impacto da tecnologia na comunicação, nos relacionamentos e na arte. Pode parecer uma repetição, quando não um lugar-comum, mas a forma de justapor certos questionamentos ao pessimismo e ao fatalismo é o que garante a Galera a exploração das novas cartografias. (a) Dois dos narradores dedicam muitas páginas à dissecação da estética da pornografia online, que em um dos casos é tratada como uma espécie de obra de arte. (b) Depois da morte de Duque, resta saber o que fazer com os rastros deixados na internet. É possível usar o material para construir uma biografia ou para analisar e validar suas obras? É possível transpor para um jornal um texto de Duque publicado online?

Tudo isso é bem mais importante do que parece. Para Steiner, o “animal linguagem” está “sofrendo uma mutação”. Além das recentes decepções de um século atribulado, também “os desenvolvimentos tecnológicos recentes” seriam responsáveis por alterar nossa gramática — num caso em que a tecnologia implica, além de tudo, sérias questões metafísicas. Algo que Galera capta e traduz com eficiência.

Se começa levemente hesitante — sobretudo nos diálogos, algo em que Galera costuma ser bom —, a narrativa logo se firma e cresce em densidade. É significativo que os pensamentos e os discursos dos personagens tenham mais peso do que o que ocorre na realidade. Há poucas cenas, todas breves, sobretudo porque o presente, com a morte de Duque e as frustrações imediatas, parece mais estéril. Para os três, resta a saudade do passado e a apreensão em relação ao futuro: é isso que devem e tentam articular. Nem tudo, porém, está circunscrito à vida pessoal. Sem recear que os temas sejam grandes demais e acabem ultrapassando os próprios narradores, solapando ou ameaçando as características individuais, Galera faz com que Antero, Aurora e Emiliano desenvolvam continuamente alguns bons insights. Manobra arriscada, mas bem-sucedida.

A mera existência de uma linguagem complexa, diz George Steiner, serve como uma admissão de esperança. Se há tempos verbais no futuro, então há esperança. É aqui que Steiner expressa a dialética do medo e da esperança — ver o medo como uma constante, e a esperança como um importante ato de fala. De onde viria a autorização da esperança? Não é preciso, como Steiner deixa claro no final do livro, “a validação formalmente religiosa da esperança”. É possível encontrar a validação da esperança na experiência estética: “É a produção e a recepção das obras de arte, no sentido mais amplo, que possibilitam partilhar da experiência da duração do tempo sem limites”. Uma estética que se transforma a fim de perceber e de incorporar as mudanças. Dar sentido a elas. Criá-las, quem sabe.

Ainda que a literatura nunca pare de se reinventar, suas constantes são todas humanas. Por sorte se pode recorrer novamente a Steiner, que diz que “a alegria e a mágoa humana, a angústia e o júbilo, o amor e o ódio continuarão exigindo uma expressão articulada” e, consequentemente, “a pressionar a linguagem que, pressionada, se torna literatura”. E a esperança é mais do que um ato de fala: é continuar a perscrutar, a questionar, a estreitar laços e estabelecer correspondências. E a criar, a inventar.

4 Comentários E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha

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  2. Felipe

    Fiquei com vontade de ler esse livro, que a princípio não me chamou muita atenção quando vi nas livrarias. Creio que seja esse um dos objetivos (os coprodutos, pelo menos) de uma boa resenha.

    Fiquei pensando sobre essa coisa de como a tecnologia influencia nos nossos relacionamentos. Isso é de uma realidade tão visceral que realmente poderiam ter mais obras tratando disso.

    Pensando aqui superficialmente: reparei no fenômeno dos apps como whatsapp. Antigamente, namorados se comunicavam de maneira mais profunda, sei lá, pessoalmente, por carta. Agora há a necessidade onipresente de estar em contato o tempo, de dar bons dias e boas tardes constantemente, como aqueles ratos engaiolados que pressionam uma barra que faz cair um grão de ração. É nisso que a expansão da internet está nos transformando aos poucos em nossas relações.

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