Dez de dezembro – George Saunders

Dez de dezembro – George Saunders

Em comum, os protagonistas dos contos incluídos em Dez de dezembro têm a imaginação prodigiosa. Vários deles compartilham a capacidade de visualizar a si mesmos em circunstâncias especiais — o que requer, entre outras coisas, uma parcela de inquietação, um instante de ócio, vontade de exercitar a criatividade e uma perigosa tendência ao devaneio. Num instante, podem idealizar admiradores (uma adolescente), inventar um diálogo com o pai severo (um garoto) ou fantasiar, sem razão aparente, com uma casa mal-assombrada cravada num milharal (uma mulher).

dez de dezembro_grandeDiante de uma situação perturbadora ou ameaçadora, certos devaneios proporcionam uma fuga. Outros não passam de delírios de grandeza ou heroísmo. Alguns, cuja motivação é difusa, são consequência de um otimismo extremo e (por isso mesmo) ingênuo.

Quando dissecadas, as divagações revelam tanto sobre o personagem quanto qualquer informação entregue de forma direta por ele ou pelo narrador. Qualquer que seja o seu conteúdo, dele emerge (a partir das expectativas implícitas) carência, megalomania, vaidade, rancor ou ambição. Embora ocultos, seus desejos e emoções estão ali — e podem ser atemporais ou marcados por uma época em que o número de carros na garagem indica o êxito ou o fracasso do vizinho.

O inseguro personagem que dá nome ao conto “Al Roosten” devaneia para escapar da opressiva realidade que o circunda. Al acredita ter sido humilhado por Donfrey, um sujeito que considera bem-sucedido — e o que parece invejável no outro não é senão o superficial, da boa aparência à enorme mansão no topo de uma colina. Depois do mal-entendido, a irritação e o despeito de Al o levam a cometer um erro estúpido. No instante em que se dá conta do que fez, oscilando entre o remorso e a autoindulgência, Al imagina uma trégua entre ele e o rival. Não demora muito para que veja a si mesmo apertando a mão de Donfrey e jantando em sua casa. Os dois se tornariam amigos. “Em pouco tempo ele seria praticamente parte da família”, escreve Saunders. Seu devaneio é bem revelador: se não pode obter o sucesso de Donfrey, pode batalhar por sua aprovação.

É claro que a aproximação, com todo o alívio e felicidade que ela traria a reboque, acontece apenas na cabeça de Al. Na realidade, tudo leva a crer que as consequências do erro do protagonista — uma atitude impensada e infantil —, podem ser muito graves. Dificilmente, caso conseguisse apontar Al como culpado, Donfrey seria capaz de compreender e perdoar seu deslize. A amizade não passa de um delírio.

impulso — a ação impensada que dá, ou pode dar, lugar à tragédia — é bem explorado nos contos de Saunders. Inconsequência, ingenuidade e desconhecimento são alguns dos ingredientes óbvios das decisões repentinas e irrefletidas. (Jamais a maldade em estado bruto, elemento que parece estranho ao estilo e à abordagem do autor.) Nos momentos decisivos, os personagens de Dez de dezembro surpreendem. Raramente algum deles encontra uma saída lógica, moderada ou meramente esperada.

Apesar disso, não há uma dissonância entre o que se espera dos personagens de Saunders e o modo como o autor encaminha suas diversas ações. A surpresa é parte essencial do pacote: está ali desde o primeiro conto (o excelente “No colo da vitória”), de modo que o leitor compreende, intuitiva e instantaneamente, que deve contar com o insólito. E o insólito, em Dez de dezembro, não é mero exercício de técnica e estilo — ele está presente sobretudo nos componentes da trama. Saunders não se propõe a narrar o óbvio usando uma fórmula mais ou menos conhecida, ou, o que dá no mesmo, meramente reproduzindo a realidade. Vez ou outra, aqui e ali, ele a recria. Certas emoções e expectativas muito humanas estão embutidas em enredos que misturam o conhecido e o inventado.

É o caso de “Fuga da Cabeça da Aranha”, um dos melhores contos do livro. Nele, detentos são cobaias submetidas a experimentos esquisitos. O cenário é uma construção peculiar — uma construção cuja central de comando é como a cabeça de uma aranha, uma vez que todas as salas se projetam, feito patas, a partir dela. O narrador, Jeff, um assassino que claramente se arrepende de seu crime (também cometido por impulso), é exposto a substâncias que agem diretamente na sua consciência. Suas reações, observadas por pesquisadores e minuciosamente descritas por ele, garantem boa parte da graça do relato. Algumas das drogas são praticamente inofensivas, como a que promete tornar o ambiente mais atraente através de uma alteração da percepção. Outras são perigosas. Uma decisão complexa que Jeff se vê obrigado a tomar envolve as do segundo tipo.

O inusitado — o edifício em forma de aranha, as drogas legalizadas e patenteadas que provocam reações específicas — convive bem com o conhecido, ou seja, com emoções humanas básicas e questões morais complexas. (A maneira como Jeff e duas mulheres reagem à substância que anula/incute o amor romântico, descrita de forma bem-humorada por Saunders, pode ser lida como um resumo cômico das sensações e alterações de comportamento que uma pessoa é capaz de experimentar mesmo no seu estado normal.) O problema moral que Jeff enfrenta, cercado pela tecnologia avançada, faria sentido em contextos mais triviais. E ele não é o único protagonista a se ver diante de uma escolha difícil. O imperativo das decisões complicadas, que normalmente devem ser tomadas sob pressão e com uma infinidade de fatores a serem considerados, têm enorme peso nas narrativas de Saunders.

Semplica girl – Os diários” segue a mesma lógica: um elemento estranho e cruel, inventado pelo autor, está inserido em uma realidade que de resto é bem conhecida. Poderia ser um relato sufocante, mas não é o que acontece. O que suaviza as histórias de Saunders é seu humor discreto, que aparece até mesmo nos enredos mais sombrios. Em “Semplica girl“, assim como em outros textos, é a forma como o narrador descreve sua tragicomédia (como quem faz anotações ligeiras) que garante uma parcela da graça. Há uma ou outra frase escancaradamente cômica, além do deboche marcado pela familiaridade/reconhecimento ou, na outra ponta, pelo absurdo da coisa.

Outro exemplo. No conto que dá título ao livro, é a figura de um garoto gordinho, ingênuo e desajeitado (e que mantém diálogos imaginários com a menina por quem é apaixonado), que, junto com detalhes muito sutis na própria construção e condução da trama, suaviza o drama maior de um homem com câncer terminal. Suaviza, mas não impede o golpe.

O conto intitulado “Filhote” é um bom exemplo da maneira como Saunders emprega o humor. Embora o conto fique mais sombrio e deprimente na medida em que se aproxima do final, o autor insere um parágrafo que não esconde a ironia debochada — ironia contida justamente no olhar impiedoso que uma das protagonistas lança sobre um cão em uma casa da zona rural: “Ok, então, tudo bem, eles adotariam um cachorro caipira. Haha. Poderiam batizá-lo de Jecão, comprar para ele um cachimbinho de espiga de milho e um chapéu de palha. Ela imaginou o cachorrinho, depois de cagar no tapete, erguendo os olhos para ela, como quem diz Discurpa, num guentei.”

Saunders é de uma precisão impressionante — e a consequência disso é que seu tom exato parece quase um milagre. Tudo é bem dosado: o inusitado, o cômico e o amargo, o delicado e o prosaico. Num dos contos do livro, o protagonista experimenta “uma grande ternura (…), uma ternura difícil de distinguir de uma espécia de vasta náusea existencial”. A leitura de Dez de dezembro pode causar um efeito parecido — graças, em parte, à sensibilidade que rejeita categoricamente o sentimentalismo. E àquela mágica de Saunders que parece tão única e inimitável.

As batidas do coração. Sentem isso, pessoal? No peito? É linha tênue entre vocês e o túmulo.

4 Comentários Dez de dezembro – George Saunders

  1. Cândida Schaedler

    Sou suspeita pra comentar tuas resenhas, Camila. Acho todas incríveis, desde que teu blog era hospedado no NH. Desde lá, não consigo parar de visitá-lo ao menos uma vez por mês. Tu me encorajaste, de certa forma, a me aventurar a fazer resenhas também.
    Fiquei com bastante vontade de ler esse livro do George Saunders. Mas, na verdade, o que mais me impressiona em ti é que, por mais que tu não tenha achado a obra boa (como NW, da Zadie Smith, ou um do Llosa de que não me recordo), fico com vontade de ler o livro mesmo assim, porque tu criticas de uma maneira que quero conferir os pontos negativos, não sei explicar. E isso é incrível!
    Estou agora com A Última Névoa e Entre a Vida e o Sonho, da Maria Luísa Bombal pra ler, e cheguei à autora através de ti. Consegui esse último na biblioteca da PUCRS, na edição de 1949 ainda. (E o estado de conservação é impecável.)
    Parabéns e muito sucesso!

    Reply
  2. Aline T.K.M.

    Adoro contos e confesso que já estava de olho nesse livro. Gostei de saber um pouco mais das temáticas dos contos, e me parece que o livro tem um teor psicológico interessante – gosto muito! A presença do inesperado, do insólito, também é um aspecto que me agrada sempre. Agora fiquei mesmo querendo ler o livro!

    Beijos, Livro Lab

    Reply
  3. Pingback: Dez de dezembro, de George Saunders | r.izze.nhas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *