Depois de molhar os pés, mergulhe de cabeça

Depois de molhar os pés, mergulhe de cabeça

0.

Chapéus. Minha avó detestava chapéus. Não só não usava chapéus como não podia ver outras pessoas usando chapéus. Vendo, queria manifestar a indignação. Não poupava ninguém. Começava com um “Olha lá…” e, pelo tom de voz, mesmo sem ter espiado na direção que ela indicava com o queixo, eu sabia que a frase terminaria com um “…aquele chapeuzinho”. As palavras não mudavam e não eram ditas num sussurro. Ela tampouco berrava, mas falava em alto e bom som, e não raro o dono ou dona do chapéu, que minha avó encarava com o maior dos sorrisos, mas um sorriso de desdém, e com uma risadinha à la Mutley, enfim, não era raro que ele ou ela ouvisse o comentário e devolvesse um olhar desconfiado, constrangido ou ofendido. Provavelmente a tomavam por uma velha senil, a única explicação para o silêncio que se seguia. Nunca uma resposta grosseira, nunca uma pergunta indignada. Mas não era. Senil. Minha avó acordou um dia e decidiu que sua paciência para chapéus havia terminado e, ainda que não fosse lá uma coisa muito gentil ou produtiva, uma vez que cada um tem a liberdade de usar o que bem entender para enfeitar o que quer que seja, era algo inofensivo. Não havendo agressão física nem nada além de um comentário genérico, ainda que desnecessário, não fazia sentido acabar com a alegria de uma senhora que odiava chapéus. Quando ninguém estava olhando, eu ria junto. Sempre gostei de chapéus, mas gostava mais da minha avó.

 

Once upon a time, you dressed so fine
Threw the bums a dime in your prime
Didn’t you?

 

1.

Perdão, quis começar com um mcguffin. Para entender Não há lugar para a lógica em Kassel e também este texto, é importante entender o que é um mcguffin.
Como explica Vila-Matas nas páginas 7 e 8:
“Como alguns sabem, para explicar o que é um mcguffin o melhor é recorrer a uma cena que se passa em um trem: ‘Poderia me dizer o que é este pacote no maleiro sobre a sua cabeça?’, pergunta um passageiro. E o outro responde: ‘Ah, isso é um mcguffin’. O primeiro quer saber, então, o que é um mcguffin, e o outro explica: ‘Um mcguffin é um aparato para caçar leões na Alemanha’. ‘Mas na Alemanha não há leões’, diz o primeiro. ‘Então isso não é um mcguffin’, responde o outro.
O mcguffin por excelência é O falcão maltês, o filme mais charlatão de toda a história do cinema. O filme de John Houston narra a busca por uma estatueta que os Cavaleiros de Malta pagaram como um tributo por uma ilha a um rei espanhol. Fala-se muitíssimo sobre o objeto, sem parar, mas, ao final do filme, o cobiçado falcão pelo qual tantos chegaram até a matar se revela nada mais que o elemento de suspense que permitiu o avanço da trama.
Como já devem ter concluído, existem muitos mcguffins. O mais famoso se encontra no início de Psicose, de Hitchcock. Quem não se lembra do roubo realizado por Janet Leigh nos primeiros minutos? Parece tão importante e acaba se mostrando irrelevante para a trama. Não obstante, cumpre a função de prender a nossa atenção à tela pelo resto do filme.
E há mcguffins, por exemplo, em todos os episódios de Os Simpsons, nos quais o prelúdio que abre qualquer um deles tem pouco ou nada a ver com o que ocorre ao longo do capítulo.”

 

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2.

Convidado a participar da Documenta 13, Enrique Vila-Matas decidiu registrar em livro sua experiência. O próprio autor define Não há lugar para a lógica em Kassel, o produto final da observação e da investigação, mas sobretudo da invenção, como uma “reportagem romanceada”. Além de uma conferência a que poucos compareceram, a atuação do escritor na cidade de Kassel, na Alemanha, consistiu em uma visita diária um restaurante chinês, o Dschingis Khan, onde deveria interagir com quem quisesse interagir com ele. Cumprida a obrigação, Vila-Matas teria a chance de palmilhar as ruas do lugar e acompanhar as intervenções dos artistas da Documenta. (A Documenta, que acontece de cinco em cinco anos em Kassel, é famosa por exibir o que há de mais, digamos, progressista na arte contemporânea. O autor esteve na edição de 2012.)

2.1.

NHLLK é um livro despretensioso. Seu objetivo, se é possível falar em objetivo, é cercar, sem sequer se aproximar de uma conclusão, o conceito de vanguarda. Ainda que reconheça (é claro) a importância da reflexão/investigação rigorosa, inclusive para a guinada da arte produzida nos primeiros anos do século 20, Enrique Vila-Matas não pretende explicar a vanguarda por um viés teórico e nem, consequentemente, defender uma corrente específica. Se há uma corrente em NHLLK, é uma corrente de ar. (Isso vai fazer sentido já, já.)

2.2.

Mesmo se considerarmos o desgaste do termo, o livro bem poderia flertar com o rótulo de surrealista. Guardadas as devidas proporções, há certo parentesco entre NHLLKNadja, de André Breton. O catalão é um flâneur em Kassel, um flâneur que percorre, paralelamente às ruas reais e bem ao gosto dos surrealistas, os atalhos da própria imaginação. Durante o percurso, tanto a atmosfera de Kassel quanto as instalações da Documenta, difíceis de classificar, impressionam o autor. “Kassel não se destacava bem por dançar ao som do lógico”, escreve.

2.2.1.

No prefácio da edição de Nadja publicada pela Cosac Naify, Eliane Robert Moraes observa que na cartografia dos surrealistas há “referências a um só tempo concretas e imaginárias”. É assim que Vila-Matas se orienta por Kassel. Ao “trajeto errante”, escreve ela, corresponderia “uma alma errante”. Outro paralelo importante. Também a vontade de “repensar seu lugar no universo a partir dos outros” é similar. No caso de Enrique Vila-Matas, isso inclui as obras de arte expostas na Documenta.

2.2.2.

“Entre o trajeto do caminhante surreal e o curso de seu pensamento estabelecem-se nexos inesperados, já que ambos recusam as rotas conhecidas em função da exploração do desconhecido. A perambulação pelas ruas de [Kassel] supõe, portanto, o desejo de soltar as rédeas do espírito, de abandonar-se a seus ritmos incertos e hesitantes, de acolher enfim sua própria possibilidade de errar. Exploração arriscada, que prescinde da orientação de mapas e bússolas — mas que, por isso mesmo, conduz à descoberta da poesia. Aos olhos de [Enrique Vila-Matas], [a arte] representa a própria encarnação dessa aventura sensível.”

2.2.2.1.

Note que foi fácil substituir, no parágrafo escrito por Eliane Robert Moraes, “Paris” por “Kassel”, “Breton” por “Enrique Vila-Matas” e “Nadja” por “a arte”.

2.2.2.2.

“A poesia de uma álgebra desconhecida.”

 

People’d call, say, Beware, doll! You’re bound to fall!
You thought they were all kiddin’ yooouu

 

5.

Nas andanças por Kassel, o que ficará claro em seguida, Enrique Vila-Matas é impulsionado por uma dose de otimismo que chama de “aquele súbito ímpeto invisível”. Como não sabe defini-lo, inventa uma série de explicações que não explicam nada, apenas reforçam o problema. Qualquer fenômeno parece a ele o resultado do destino ou do acaso — a explicação mais comum para acontecimentos singulares em seus livros. Raramente há causas e efeitos bem marcados. Poucas sensações e emoções têm, especialmente em NHLLK, raízes orgânicas. Oscilações de humor dificilmente são causadas por desequilíbrios químicos ou perturbações reais. Ainda em Barcelona, antes de partir para Kassel, o autor recorre aos comprimidos do doutor Collado, um amigo, a fim de manter o humor, imprevisível, mais ou menos estável. É uma das únicas concessões. De resto, como quando descreve o esgotamento físico e mental de que é vítima ao entardecer (esgotamento que desaparece pela manhã, quando invariavelmente acorda bem disposto), Vila-Matas não se preocupa em encontrar razões ou saídas razoáveis. Muitas coisas, incluindo suas alterações de ânimo, pertencem ao terreno do imponderável. Ele mesmo se considera, como escreve em uma passagem do livro, um “excursionista metafísico”, o que também remete à exploração da imaginação à maneira do flâneur surrealista. E o metafísico, em Vila-Matas, é sempre ilógico e incompreensível.

5.1.

Num dado momento, Vila-Matas evoca um amigo que dizia que “nunca se [chega] à literatura por acaso”. Como diferenciar o acaso, invariavelmente insondável, daquilo que é uma mera resposta a um anseio? “Nunca, nunca, repetia, apenas o destino, um destino obscuro, uma série de circunstâncias que levam a escolher, e você sempre soube que esse era o caminho”, escreve o catalão. Se você sabe, não há nada obscuro. Se você escolhe conscientemente, não há nada obscuro. Seja como for, a frase define não só as vias tortuosas que conduzem alguém à literatura como destino final, mas também, ou sobretudo, as que conduzem esse alguém a um livro específico, um livro capaz de deixar uma marca duradoura. Como uma narrativa sobre luto que chega até um sujeito que perdeu uma pessoa querida, mais ou menos isso. Digo o que digo porque me parece que NHLLK foi um destes livros importantes, um livro que talvez tenha chegado até aqui por um destino obscuro, sobre o qual eu não tenho controle, e que no fim das contas, quando me decidi a folheá-lo, era a resposta a um anseio bem palpável. Não sei.

5.1.1.

De resto, para o bem e para o mal, Vila-Matas gosta de acreditar, ou de fingir que acredita, no “destino obscuro”. E, hábil como é, também faz com que o leitor, ou o leitor disposto a entrar no seu jogo, acredite nisso, inclusive e principalmente em relação à sua própria obra, a romances como Ar de Dylan e Doutor Pasavento.

5.1.2.

Sou indulgente com Vila-Matas? Compreendo as regras de seu jogo e por isso estou disposta a participar dele, ou de fato gosto de jogar? Meio a meio.

5.1.3.

Tudo bem, eu gosto.

5.2

Mas, bem, se algumas das linhas de pensamento excêntricas ou mórbidas que aparecem e que resolvemos seguir, com ou sem lógica, como, no fim das contas, um cachorro persegue o próprio rabo, forem resultado de um desequilíbrio químico, digamos, ou de uma alteração qualquer no funcionamento das células nervosas, quanto da indagação mais básica do homem, e até da filosofia, nasceu de uma leve alteração de percepção, de humor, de disposição de ânimo? (Não que eu acredite na normalidade, mas há a perturbação mais aparente.)

5.2.1.

descartes

 

 

.

.

.

.

.

 

6.

Como acontece em quase todos os livros de Vila-Matas, NHLLK parte de um deslocamento. É possível forçar um paralelo com A viagem vertical, p. ex., romance em que Federico Mayol encara o desconhecido (e precisa recorrer a reservas de coragem e ousadia antes inexploradas) ao partir para Portugal. Os riscos que qualquer trajetória carrega rivalizam com a possibilidade de autodescobrimento, e de descobrimento em geral, que ela oferece. É preciso colocar na balança. “O ponto em comum era o perigo, elemento inseparável de toda viagem que se preze. Porque o perigo, refleti, trazia sempre o prazer de sentir medo. E o medo era fantástico, em especial o medo em relação à perspectiva de se deparar com o estranho, o incomum, o não familiar, talvez até com o novo”, escreve o autor em NHLLK. Mesmo um homem de sessenta e tantos anos, como é o caso de Vila-Matas na ocasião de sua visita a Kassel, pode ser surpreendido.

6.1.

“Tive a impressão de estar vivendo mais uma vez o começo de uma viagem que poderia acabar transformando-se em um relato escrito no qual, como era comum, mesclaria a perplexidade e a vida em suspenso para descrever o mundo como um lugar absurdo aonde se chegava através de um convite muito extravagante”, confessa Vila-Matas em NHLLK.

6.2.

Citando Kafka, Vila-Matas menciona “a sua busca por um lugar, por um lar que talvez não [encontre] ao voltar para casa, mas que [pode] encontrar um dia no meio do caminho”. A noção de pertencimento, ainda que não seja interpelada de forma mais intensa ou direta, ronda os pensamentos do autor durante sua temporada em Kassel. A perspectiva de descobrir um lar onde menos se espera é, para o catalão, uma das vantagens do deslocamento — viajar também pode significar regressar, ainda que não se saiba bem para onde.

6.2.1.

No imaginário de Vila-Matas, “deslocamento” e “vanguarda” estão ou conectados, ou muito próximos. O autor também sugere, de forma mais ou menos mórbida, que aos outros dois é possível unir o conceito de “extinção”. É claro que nada disso é dito de maneira explícita — é, contudo, o que se pode inferir das divagações nem sempre coerentes do catalão. O deslocamento e a vanguarda comportariam a ideia de desvio, de fuga da estrada familiar, de rota alternativa, de trilha não só não percorrida como sequer aberta. Para chegar à extinção, imagine que uma pessoa se afasta tanto de um itinerário conhecido que, quando vê, se isso for mesmo possível, já não pode encontrar o caminho de volta. O caminho talvez esteja lá, mas ela desapareceu.

 

You used to laugh about
Everybody that was hangin’ ooouuut

 

7.

Concordei com a cabeça na passagem em que Enrique Vila-Matas diz que, para se situar no mundo, “é necessário fazer o possível para já parecer situado”. Uma observação e tanto. Não somos todos sujeitos deslocados que fingem uma adequação que nunca é plena? O grau de dissimulação é que varia. Nenhum dos personagens mais emblemáticos de Vila-Matas, para ficar no terreno da ficção, trabalha duro para representar o papel de alguém adaptado — tanto ao presente imediato quanto à vida em geral. O próprio autor, da maneira como descreve suas andanças por Kassel, não parece muito empenhado em disfarçar seu desassossego e sua confusão. Qualquer tentativa nesse sentido carece de convicção, mas não, como quase sempre ocorre, de humor.

7.1.

E não é o despertencimento, em resumo, que faz surgir a filosofia? Em maior ou menor grau, seja qual for a causa, todos despertencemos. Às vezes é doloroso, às vezes é suportável. A graça é que está sempre lá.

 

4.

Um dos livros que Vila-Matas carrega na mala até Kassel é Romantismo: uma questão alemã, de Rüdiger Safranski. É dele que o catalão retira a frase que menciona mais de uma vez: “Apenas como fenômeno estético estão eternamente justificados o mundo e a existência”. A julgar por NHLLK, e pelos romances de todos os autores que compreenderam muito bem os mcguffins, Safranski tem razão.

 

Now you dooooooon’t talk so loouud
Now you dooooooon’t seem so proouud

 

8.

Como Vila-Matas observa em uma passagem, “toda história remetia a outra história que por sua vez remetia a outra história, e assim até o infinito”. É a premissa básica de qualquer livro do catalão — livros que não só indicam como incorporam outros livros. NHLLK, no entanto, leva as ramificações mais a sério. Não são propriamente as histórias que podem conduzir umas às outras, mas as ideias. Não apenas as que Vila-Matas resolve compartilhar com o leitor, que certamente se sucedem de maneira às vezes caótica, mas também as do próprio leitor, a grande vítima da coisa toda. Muito sofrido.

 

About having to be scrounging for your next meeeeaaaaaaaaaaaaawwl

 

9.

“Porque, ao contrário do que tantos acreditam, não se escreve para entreter, embora a literatura seja das coisas mais divertidas que existem, nem se escreve para isso que chamam de ‘contar histórias’, embora a literatura esteja cheia de relatos geniais. Não. Escreve-se para prender o leitor, para assenhorear-se dele, para seduzi-lo, para subjugá-lo, para entrar no espírito do outro e permanecer ali, para comovê-lo, para conquistá-lo.”

9.1.

Será Enrique Vila-Matas um autor vanguardista? De acordo com a definição que ele mesmo criou, sim: “De fato, todos os grandes romances conhecidos foram, de certo modo, vanguardistas, na medida em que acrescentaram algo novo à história da literatura”. Nesse sentido, diz o catalão, até Charles Dickens seria um vanguardista. Aí achei meio forçado, mas talvez seja melhor não contrariar.

 

11.

Péssima ideia ler Vila-Matas antes de dormir. Há muito o que anotar e destacar. Estou jogada na cama como uma boneca de pano e aí há algo que merece ser assinalado. Pego a caneta, destampo a caneta, faço um abdominal, risco/escrevo, afundo nos travesseiros de novo. Repito a operação mais ou menos três vezes por página. O tônus muscular agradece, mas é uma merda. Melhor ler de dia, numa mesa.

11.2.

Bom mesmo é jogar o jogo que Vila-Matas sugere lá pelas tantas. Como o autor explica, a coisa toda consiste em fingir para você mesmo que o que você acabou de ler o deixa “estupefato”. Use o próprio NHLLK. Talvez seja melhor praticar em público, é claro, num café, por exemplo, mas há algo tão absurdo em jogar sem plateia, na própria poltrona de leitura, digamos, sem que ninguém presencie suas caras e bocas, que parece que a graça reside justamente nesse absurdo.

11.1.

Dentre as frases que assinalei: “Uma noite difícil. E meus olhos como faróis”. Bonita e cafona na medida. Foi para o caderninho.

11.3.                                                                            

“Passei a noite toda às voltas com perguntas arriscadas”, escreve Enrique Vila-Matas. Ler NHLLK e se deixar conduzir pelo autor com alguma ingenuidade, em especial naqueles momentos imediatamente anteriores ao ato de rendição em que a luz do abajur é apagada, equivale a garantir as condições necessárias para tornar a frase uma realidade. Mui perigoso, uisquinho na mão.

 

How does it feeeeel?
How does it feeeeeeeeel?

 

12.

A instalação de Ryan Gander, I Need Some Meaning I Can Memorize (The Invisible Pull), foi a grande responsável pelo ótimo humor de Vila-Matas em Kassel. Consistia em uma brisa artificial, um sopro de vento, na galeria principal da Documenta. Só isso — algo que não podia ser capturado nem visto. A simples memória da euforia promovida pela aragem, acredita o autor, o impulsiona durante toda a sua curta temporada na cidade. Se favorece seu otimismo em relação à arte contemporânea, o trabalho de Gander também o comove num sentido mais íntimo. Em qualquer um dos casos, o efeito parece a Enrique Vila-Matas insondável.

12.2.

This Variation, assinada por Tino Sehgal — artista cujo lema, “a arte passa como a vida”, levou Vila-Matas a dar voltas e mais voltas tentando decifrar seu sentido —, está no centro de alguns dos melhores momentos do livro. Num quarto escuro, performers interagiam com o público de forma ora divertida, ora sinistra. É claro que a imaginação fértil do catalão contribui para tornar a experiência ainda mais esquisita.

12.1.

Untilled, a instalação que serviu de imagem de capa para a edição da Cosac Naify, é assinada por Pierre Huyghe. É difícil explicá-la — o próprio autor não foi muito bem-sucedido em suas tentativas. A base era formada por uma composteira erguida em um enorme parque de Kassel, o Karlsaue. Uma estátua com a cabeça coberta por abelhas e um galgo (vivo) com a pata pintada de cor-de-rosa funcionavam como os destaques daquilo que, no fundo, podia ser descrito como um pequeno sistema. Vila-Matas não chega a decifrar a obra, mas ela lhe causa grande impressão.

12.1.1.

Quando vê a obra de Huyghe, Vila-Matas pondera que “só uma arte à margem do sistema e afastada de galerias e museus poderia ser de fato inovadora, apresentar algo distinto”. Tanto Huyghe quanto Sehgal são citados em um ótimo texto de Hal Foster publicado na revista Piauí. Para Foster, os dois “não requerem tanto espaço e, em muitos aspectos, o recusam”. São artistas que, em certo sentido, ficam à margem, ou ficavam, e por isso mesmo eram ideais para a Documenta 13.

 

To be without a hooooome
Like a complete unknown
Like a rolling stoooone

 

13.

Vila-Matas chega à Documenta decidido encarar a produção contemporânea sem desconfiança. O catalão “sabia que sempre foi muito fácil para os idiotas insultar esta arte” e “não queria ser esse tipo de gente”. Tal qual seus personagens mais emblemáticos, ele permanece aberto ao desconhecido. Ainda que, como o próprio autor frisa, não abandone o olhar crítico, ele tampouco rejeita de antemão os trabalhos exibidos em Kassel. Mais do que ter a chance de compreender outras formas de expressão, quer ter a chance de ser impactado por elas. Por fim, quando sente a brisa criada por Ryan Gander, sua postura passa de generosa a otimista.

13.1.

“Eu intuía que, por trás da risadinha fácil direcionada a certas tentativas de criar uma arte inovadora, sempre se ocultou no fundo um ressentimento, um ódio sujo em relação àqueles que arriscam fazer algo novo ou pelo menos diferente, sempre se ocultou uma má vontade doentia em relação aos que são conscientes de que, como artistas, encontram-se em uma posição privilegiada para fracassar, enquanto os demais não se atreveriam a isso, e assim experimentam e criam obras de arte arriscadas, que careceriam de sentido, isso quando não [contêm] o fracasso em sua própria essência”. Fracasso, outro tema recorrente na obra de Vila-Matas.

 

 

You’ve went to the finest school, all right, miss lonely
But you know you only used to get juiced in iiiit

 

10.

Carolyn Christov-Bakargiev, a responsável pela Documenta 13, acredita que “na arte a confusão [é] algo verdadeiramente maravilhoso”. O modo como Enrique Vila-Matas incorporou a confusão em NHLLK deixa claro que ele levou a afirmação a sério.

 

Nobody has ever taught you how to live on the street
And now you’re gonna have to get
Used to iiiit

 

14.

Lá pelas tantas, Vila-Matas relembra uma “frase que dizia que o buraco que a obra genial deixa quando queima o que está ao nosso redor será sempre um bom lugar para acender uma pequena luz própria”. Definitivamente se aplica a NHLLK“Do genial, pensei, sempre surge algo que nos incita, que nos empurra para adiante, levando-nos não apenas a imitar parte do que nos deslumbrou, como a ir mais longe e descobrir o nosso próprio mundo.”

14.1.

Quando Vila-Matas diz que o amor é “o grande reino do infundado e do gratuito”, inadvertidamente toca no assunto do sentimento de afeto por uma obra de arte. Pensei que, por mais que se pretenda analisar os méritos e falhas de x, às vezes os motivos que levam alguém a gostar ou desgostar de x são insondáveis. Por que gosto de NHLLK? Tanto? Na certa é um bom livro, mas eu não contava com uma luz própria que pudesse ofuscar tanta coisa — há muito ainda por ser dito. “E a bruma e a fumaça, por outro lado, eram o que mais me atraía, sem que eu nunca tivesse tido vontade de analisar as causas”, escreve Vila-Matas, certeiro. Também gosto da bruma e da fumaça, mas é impossível divisar qualquer coisa no meio delas.

14.1.1.

Em NHLLK, fui molhando os dedos dos pés e depois mergulhei de cabeça.

14.2.

“Aquele ímpeto suplementar, aquele ímpeto invisível já podia ser motivo de piada por parte de milhares de idiotas do mundo todo, mas isso não importava nem um pouco, eu tinha me apaixonado por aquela brisa e por aquele impulso, e, além do mais, suspeitava que, no seu empurrão, em sua força, havia algo oculto que eu não conseguia apreender, talvez uma mensagem cifrada”, escreve Vila-Matas sobre a brisa de Gander.

14.3.

E quando vê a instalação de Huyghe: “Lembro-me que uma das excentricidades que me ocorreu num primeiro momento foi pensar que aquele lugar estranho tinha sido criado especialmente para mim, ou para pessoas muito parecidas comigo”.

 

You said you’d never compromiiiiiise

 

15.

“Collapse and Recovery”, avisa María Boston, responsável por fazer o contato inicial com Vila-Matas, é o lema da Documenta 13. É ideal para o autor, que colapsa todo final de tarde e se recupera na manhã seguinte. E não colapsamos todos, em algum momento? E não nos recuperamos todos, ou pelo menos tentamos? Também o mundo colapsa e se recupera, colapsa e se recupera. Ou tenta.

 

16.

O passado recente de Kassel, de toda a Alemanha, é incontornável. Vila-Matas não demora muito para intuir as “relações entre a arte inovadora e nosso passado e presente histórico”. Para ele, está claro que “arte e memória histórica [são] inseparáveis”. Quando fala sobre isso — sobre os anos de nazismo e suas consequências — toda a melancolia esmagadora do autor vem à tona. Não há, e não poderia haver, traço de leveza. “Eu estava no centro da Alemanha no centro da Europa, e nesse centro era mais evidente do que em qualquer outro lugar que tudo era frio e se encontrava exangue e enterrado havia décadas, desde que no continente foram consentidos os primeiros graves erros imperdoáveis”, escreve. Kassel infundiu em Vila-Matas “um otimismo maior em relação à arte e à vida, ainda que não diante do mundo” que ele “considerava perdido”.

16.1.

Como conciliar a melancolia (o nazismo, o passado, a história) com o desejo de Vila-Matas, explorado no número 41, de ver o humor no centro de tudo? Impossível. Não há lugar para a lógica em Kassel.

 

With the mystery tramp, but now you realiiize
He’s not selling any alibis
As you stare into the vacuum of his eyes

 

18.

Enrique Vila-Matas pertence à categoria dos autores que são bons até quando são ruins. Não tem nada a ver com saber narrar. Também não tem a ver com humor, ou não tem a ver com o humor. São autores que sentem, no fundo, um grande respeito pelos mcguffins. Que aproveitam os mcguffins. Que entendem os mcguffins — mas entendem naturalmente. Beckett entendeu, e entendeu até demais, imagino. Bolaño entendeu, sem dúvida, mas é preciso ler seus livros com atenção. Joyce não só entendeu como fez questão de rir alto. David Foster Wallace entendeu, mas traduziu de um jeito peculiar. Kafka entendeu, mas disfarçou. Cesare Pavese entendeu, mas preferiu o meio-termo: ora entregou, ora escondeu o que sabia. Muitos autores não entenderam, mas fingiram que sim.

18.1.                                                                            

Numa cena particularmente melancólica de NHLLK, Vila-Matas, que deseja, naquele momento, ser outra pessoa, imagina a si mesmo como um personagem de um filme de Wim Wenders. Ele olha para fora da janela do ônibus (um ônibus do qual não sente vontade de descer) “com estranheza infinita”. É um expediente típico do autor, a manifestação inequívoca do respeito pelos mcguffins. É o recurso de apresentar o personagem, ou ele mesmo, como voyeur do próprio desespero. Consiste em trocar de lugar por alguns minutos a fim de assistir ao seu sofrimento também pelo lado de fora. Aí atesta que no desespero é possível encontrar beleza e até contentamento. Atesta que o desalento, mesmo levado a extremos, não deixa de ser um fenômeno estético. Porque a graça está lá, sempre está, ou deveria.

 

 And saying, Do you want to make a deeeeeeeeeeeaaaaaaaaaaawl?

 

19.

Enrique Vila-Matas faz uma interpretação peculiar de Wittgenstein. “O seu ideal filosófico [de Wittgenstein] era a busca pela lucidez libertadora, pela abertura da consciência e do mundo; não queria oferecer verdade, mas sim veracidade, exemplos e não raciocínios, motivos e não causas, fragmentos e não sistemas”, escreve o catalão. “Fragmentos, não sistemas.” Esse parece justamente o ideal do autor.

19.1.

Quando Vila-Matas alude aos “curtos-circuitos que [parecem] se erguer todo o tempo contra a lógica de nossa linguagem comum” — ou seja, os ruídos na comunicação  também é possível pensar em Wittgenstein, para quem a linguagem encobre o pensamento.

19.2.

Há lugar para a lógica em Vila-Matas? Não muito. Mas Vila-Matas não rejeita a lógica. Longe disso. É emblemática a cena em que, sentado na composteira de Huyghe tarde da noite, ele tenta fazer uns exercícios de lógica sem pé nem cabeça. No fim das contas, tudo o que o autor faz é apontar os limites da lógica. E mesmo os lógicos sabem que a lógica tem seus limites, ou que há, no mínimo, uma esfera onde ela já não pode atuar.

19.2.1.

Há limites para tudo, até para o humor?

 

23.

“Minha vida não tinha transcorrido como um romance de ação e, apesar disso, não havia parado de ocorrer-me coisas”, analisa Vila-Matas em NHLLK. Boa parte do que acontece ao autor em Kassel acontece apenas na esfera mental — ora é uma sequência de pensamentos que o catalão parece incapaz de conter, ora é uma cena total ou parcialmente inventada por ele. Se o recurso o converte em um observador distanciado — da cidade alemã em geral e da Documenta em particular —, também anula o esforço do leitor no sentido de determinar o que é verídico e o que é inverídico em seu relato. Não faz sentido procurar a verdade. A verdade é o disfarce. NHLLK é o resultado de uma imaginação levada ao próprio limite. Sua finalidade é justamente a distorção.

23.2.

Quase não há descrições clássicas da cidade de Kassel, do hotel, do restaurante chinês. O próprio autor confessa ser “contrário às descrições morosas”.

23.1.

NHLLK é um livro reflexivo, que depende inteiramente das associações e do encadeamento de ideias, lembranças e pensamentos. Lento ou acelerado, modular o ritmo com que as informações são entregues é de importância vital num modelo de narração como o escolhido pelo autor. É muito difícil ajustá-lo. Por sorte, Vila-Matas é um autor habilidoso e experiente. O presente imediato, por exemplo, é bem marcado: a fim de assinalar o momento em que as digressões ocorreram — como para sugerir que aquilo aconteceu naquele instante, enquanto flanava por Kassel — o catalão recorre com frequência ao “pensei” e “refleti” no início ou fim de cada parágrafo.

23.3.

Boa parte dos significados estão abertos. O leitor que os combine e acomode como quiser.

23.4.

As memórias pessoais de Enrique Vila-Matas, sobretudo da infância (quando descobriu o diferente, e, consequentemente, o medo) e da juventude (quando descobriu que gostaria de ser um artista de vanguarda, embora não soubesse bem o que era a vanguarda), se vinculam seguidamente àquilo que o autor vê em Kassel. Por mais que confesse suas lembranças e fraquezas, e por mais que não pretenda dizer a verdade, o catalão aparece, em NHLLK, mais esquivo e mascarado do que o que seria esperado.

23.5.                                            

Vila-Matas cita mais de uma vez a recomendação do poeta Mallarmé ao pintor Édouard Manet: “Não pinte o objeto em si, mas o efeito que ele produz”. É um erro ler NHLLK como um testemunho rigoroso, um depoimento desapaixonado, uma análise do estado e dos rumos da arte. NHLLK é uma declaração de otimismo triste, uma piada particular para versados em mcguffins, uma mexidinha de quadris discreta ao som de Under the mango tree.

 

How does it feeeeeeeeeeeeeel?
How does it feeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeel?
To be on your own
With no direction hoooooome
A complete unknoooooooown
Like a rolling stoooooone

 

29.

“Nada era descartável em um lugar como Kassel que, ao abrir as suas portas às ideias da vanguarda, estava rejeitando implicitamente qualquer convite à lógica”, diz Vila-Matas. Mas o livro tem, ainda que tênue, uma lógica interna, mesmo que algumas coisas se contradigam. No fim das contas, é como o próprio autor escreve em NHLLK: se “ninguém perguntasse pela lógica de tudo aquilo” eu “teria a impressão de que a conhecia de memória, mas, por outro lado, se perguntassem por ela, não saberia explicá-la”.

 

You never turned around to see the frowns on the jugglers and the clowns
When they all did tricks for yooooou

 

31.

“E me lembrei de que, em meados do século [19], todo artista europeu sabia que, para prosperar, deveria interessar aos intelectuais (a nova classe), o que levou a situação cultural a se tornar o tema do qual os criadores mais tratavam, e o propósito exclusivo da arte passou a ser o de sugerir e inspirar ideias. Passeando por Kassel, não restava a menor dúvida de que, pelo menos ali, todos nós estávamos sob o efeito daquela transformação ocorrida em meados do século [19]. Em outros lugares, não. Porque, em quase todo o resto do mundo, a figura do intelectual tinha sofrido um declínio irreversível e a cultura tinha se tornado extraordinariamente trivial. Mas, em Kassel, ainda restava certo aroma romântico e duchampiano; era um paraíso para os que amavam as conjecturas intelectuais, os discursos teóricos, a elegância de certas especulações.” A Documenta 13 “era o reino triunfal e quase definitivo do casamento entre obra e teoria”.

31.1.

Apesar das conjecturas, Calvin Tomkins escreve, na biografia de Duchamp, que o francês “costumava dizer que o artista nunca sabia realmente o que estava fazendo ou por que o fazia”.

 

You never understood that it ain’t no good
You shouldn’t let other people get your
Kicks for yooooooooooou

 

37.

Durante um jantar em Kassel, Chus Martínez, uma das curadoras da Documenta 13, observa que Enrique Vila-Matas “fala sério e brincando ao mesmo tempo”. Ele responde, espirituoso, que ela “fará bem em levar tudo a sério”. Ela, no entanto, valoriza a comicidade tanto quanto o autor. Numa entrevista que Vila-Matas encontra na internet, Chus, que é espanhola, critica a falta de humor de seus compatriotas. “Reivindico o humor como peça fundamental do moderno desde Cervantes. Um sentido da vida um pouco mais relaxado, aberto, flexível”, diz ela. E compara o senso de humor à demência, no que está certíssima.

37/2.

Vila-Matas, como não se cansa de reiterar, detesta “os lugares-comuns das vozes fatalistas que [projetam] a sua própria catástrofe pessoal sobre o mundo”. O autor questiona “se essa impressão supostamente lúcida de nossos fatalistas de que estamos vivendo em um tempo morto da arte teria necessariamente que ser vivida de uma maneira alarmada, escandalizada, pesarosa, sem humor”.

37/3.

“Como muitas outras autoridades em Duchamp, Arturo Schwarz tem muito pouco senso de humor”, alfineta Calvin Tomkins na biografia do artista francês. Haverá, hoje em dia ou no futuro, um grande estudioso da obra de Vila-Matas carrancudo? Seria tristíssimo.

37/3 + 1.

Ideia de partir o coração: um rigoroso e distinto artigo acadêmico sobre Enrique Vila-Matas em que não há um puto mcguffin.

 

You used to ride on the chrome horse with your diplomat
Who carried on his shoulder a siamese cat
Ain’t it hard when you discover that
He really wasn’t where it’s at
After he took from you everything he could steeeeeeeeeeeeaaaaaaaaaaaaaaaawl

 

41.

Chegando a Kassel, um dos objetivos de Enrique Vila-Matas seria construir uma “cabana para pensar” em seu quarto do hotel — cabana metafórica que, mais do que oferecer a possibilidade de reflexão, ofereceria um consolo e uma proteção real contra o desânimo. Seu propósito confesso, no entanto, é ficar sozinho para contemplar a “possibilidade de que na alegria se encontrasse o núcleo central de toda criação”. Sua cabana é um fracasso, porém, e ele não consegue se sentir senão angustiado e ansioso quando finalmente é deixado sozinho. Não obstante, a viagem à cidade alemã se revela não só alegre como propícia para reflexões sobre o otimismo e o bom humor. Nada disso, porém, ocorre na solitária cabana.

41.2.

Penso que o humor é tão fundamental e tão excelente e tão maravilhoso e tão fantástico que não pode ser visto como o último recurso — a alternativa ao vazio, ao nada, à dor, à dúvida, ao sofrimento, sempre definido em oposição ao que é penoso, desagradável ou hostil. A risada que se sobrepõe ao choro só é possível porque há algo de fato engraçado na grande maioria das adversidades. Bem na sua origem. Bem no seu núcleo. Em toda a sua volta. Vila-Matas aponta a graça. Vila-Matas parte da graça.

41.2.1.

É esse o mcguffin. Não só enxergar o humor no centro, mas entender o porquê de ele estar ali. Quem entendeu o porquê consegue, além de tudo, ou principalmente, rir de si mesmo.

41.2.2.

Foi uma lição que aprendi ainda muito novinha com Mary Poppins. (Talvez a capacidade de compreender  e reverenciar os mcguffins possa ser ensinada às crianças.) Foi na música “A Spoonful of Sugar”: “You find the fun/ and SNAP!”.

41.1.

“Como atingi um momento tão bom? Há recursos para tudo. Eu me vali de um mcguffin digamos que íntimo e secreto, um mcguffin que parodiava a linguagem kitsch mais terrível e que consistia, contendo a explosão de uma gargalhada, em dizer a si mesmo que as trevas bebiam o néctar vermelho do crepúsculo. Era de rachar o bico, e a pessoa perdia de imediato dois quilos de seriedade com essa brincadeira particular.”

41.1.1.

“Era uma mescla estranha de Lydia Davis e minha tia Antonia.”

41.3.

Enrique Vila-Matas é um brilhante curador de piadas alheias. Ao narrar a ocasião em que Nietzsche teria enlouquecido em Turim, o autor descreve o momento em que o filósofo abraçou o tal cavalo. Então, citando uma tirada de Milan Kundera pinçada do melhor baú de tiradas do universo, diz que “talvez o que [Nietzsche] tenha se limitado a fazer foi pedir desculpas ao cavalo por Descartes”.

41.3.1.

O ruim de ler tomando chá, veja bem, é cuspir o chá. Não precisei fingir que o que lia me assombrava, supondo que a gargalhada possa considerada ser a manifestação de uma espécie de assombro.

41.3.1.1.

Nada contra Descartes.

41.3.2.

A lógica é perigosa, parece dizer Vila-Matas. A lógica pode abrir caminho para a insanidade, que é justamente o bom humor. (Também não estou entendendo muito bem, mas vamos na onda.) Pegue Italo Calvino, e de novo Turim, a cidade onde Nietzsche enlouqueceu. “Um grande turinense por opção como Italo Calvino viu nessa cidade geométrica e perfeita um convite ao vigor, ao estilo, à lógica. Mas acrescentou: ‘Não obstante, não podemos esquecer que há lugar para a lógica em Turim, o que abre caminho para a loucura’”.

 

43.

Há momentos em NHLLK em que você não entende porra nenhuma. E é maravilhoso. (Dúvida: Enrique Vila-Matas entende tudo o que ele mesmo escreve, ou nem de longe?)

43.1.

“Talvez seja verdade, refleti, que entre os nossos jovens haja poucos que extraiam do que estão dizendo os poetas atuais alguma inspiração para a sua vida, enquanto nos anos [19]60 uma interessante minoria tomava a poesia como o guia mais confiável possível para a vida.” É possível usar NHLLK como guia, justamente porque alguns trechos não estão lá muito claros?

 

How does it feeeeeeeeeeeeel?
How does it feeeeeeel?
To be without a home
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone

 

Nos poucos dias em que esteve em Kassel, Enrique Vila-Matas ansiava por companhia. Sua cabana para pensar, solitária, parecia a ele um lugar terrível — assim como o assento confortável mas isolado no restaurante chinês. As cenas em que o autor lamenta a solidão me fizeram lembrar da amizade como definida (sem que essa fosse a intenção) pelos versos de Cesare Pavese, aquele que entendeu tudo, mas que nem sempre confessou. Escreve o italiano em Trabalhar cansa: “Quando chega, eu lhe dou uma rasteira. Ele tomba/ e eu lhe peço uma guimba. Fumamos calados”. Amizade.

 

47.

É muito fácil associar a literatura de Enrique Vila-Matas à música de Bob Dylan. O catalão é um autor dylanesco por excelência, o que não tem nada a ver com Ar de Dylan, ou tem, mas não muito, já que o romance, um dos últimos, apenas atesta o quanto o próprio Vila-Matas percebeu que tem algo em comum com Bob Dylan, ou o quanto Vila-Matas se esforçou para fazer com que a própria obra tivesse algo em comum com a de Bob Dylan. Conseguiu, é claro.

47.1.

Aquele lance kafkiano de encontrar a própria casa no meio do caminho só pode remeter a “Like a Rolling Stone”, a música do perdedor por consenso absoluto. É muito triste e é muito engraçada. É de chorar e é de rachar o bico.

47.1.

“When you got nothing/ you got nothing to lose.” O mcguffin por excelência.

47.1.

“Fumamos calados.”

 

Aaaaaaahhhhhhh
Princess on the steeple and all the pretty people
They’re all drinkin’, thinkin’ that they got it maaaaade

 

53.

Gosto das piadas óbvias de Vila-Matas. Às vezes, de um jeito muito gracioso, ele lembra o tio do pavê. Como se sentia solitário em Kassel, em especial quando deveria cumprir seu turno no restaurante chinês, ele forjou uma espécie de dupla personalidade. Antes de adotar um nome russo, escolheu chamar-se Autre (em francês, “Outro”), um autor que seria “muito diferente” dele próprio. Autre estaria interessado nos temas da incomunicabilidade e da fuga. Quando pensava “nesse barcelonense” que acalentava “dois temas tão sérios”, Vila-Matas “não conseguia conter o riso”.

 

Exchangin’ all precious gifts, but you better take a diamond ring
You better pawn it, baaaabe

 

53.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

You used to be so amused
At Napoleon in rags and the language that he used

 

59.

A arte “intensifica o sentimento de estar vivo”, escreve Vila-Matas. E tem razão. É esse o espírito de NHLLK. É metade do mcguffin. “Kassel tinha me contagiado com criatividade, entusiasmo, curtos-circuitos na linguagem racional, fascinação diante de momentos e descontinuidades que procuravam sentido no ilógico para criar novos mundos”, diz o autor.

59.1.

“No mais recôndito das nossas cabeças estavam os enormes bastidores cerebrais, bestiais, animais, territoriais, repletos de medos, de irracionalidades, de instintos assassinos. Por isso tínhamos inventado a Razão, para contrapô-la à grande confusão do vazio generalizado, tão letal.”

 

Go to him now, he calls you, you can’t refuse
When you ain’t got nothing you got nothing to lose
You’re invisible now, you got no secrets to conceeeeeeeeeeaaaaaaaaaaaaaaaawl

 

61.

NHLLK me deixou em chamas. Estou, como disse Enrique Vila-Matas na tradução de Antônio Xerxenesky, rachando o bico, inclusive enquanto trabalho neste texto. Recorri a D., que sabe que sou uma fonte inesgotável de observações e confissões hediondas. D., eu disse, talvez seja melhor me internar, estou rindo alto enquanto escrevo. D., que evidentemente entende a importância de mcguffins, me enviou o seguinte trecho: “I go to bed and then that man sits in the next room and continues laughing about his own writing. And then I knock at the door, and I say, now Jim, stop writing or stop laughing”. Foi escrito por Nora Barnacle, também conhecida como Nora Joyce.

 

How does it feeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeel?
AAAHH
How does it feeeeeeeeeeel?
To be on your ooooown
With no direction hooooome
Like a complete unknoooooown
Like a rolling stooooooone

 

67.

Quando Enrique Vila-Matas entrevistou Salvador Dalí em 1978, “disse que achava que seu livro [El mito trágico del “El Angelus” de Millet], mesmo formando uma espécie de perímetro forçado, deixava livre, no centro da linguagem, uma grande praia de imaginação, talvez sem outra chave além de seu jogo”. Nada mais irritante do que um autor que dá um jeito de encaixar na narrativa uma frase que — a despeito da cortina de fumaça que possa ter erguido a fim de manter decoro — define o próprio trabalho. No caso de uma narrativa tão confusa quanto NHLLK, porém, é um tremendo alívio que Vila-Matas diga aquilo que eu poderia concluir mas jamais traduzir com tantos floreios desnecessários. Na ocasião do encontro, Dalí respondeu que Gala (Gala Éluard Dalí, mulher do artista), ao ler o livro, observou “que se o que ele dizia ali se revelasse verdadeiro, seria genial, mas se ao final se revelasse como não sendo verdadeiro, então o livro era muito mais genial ainda”. Mais um golpe irritante de Vila-Matas. Quase insuportável, porém suportei.

 

[Gaitinha, gaitinha]

 

71.

The answer, my friend, is blowin’ in the wind.

 

73.

Chapéus. Eu não tenho nada contra chapéus, ao contrário da minha avó. Talvez a minha avó nem detestasse os chapéus tanto assim. Nunca pude averiguar se a raiva que ela sentia era genuína. Minha avó, que ouvia ópera num discman e gostava de arrancar brotinhos de plantas em floriculturas para não ter de pagar, certamente entendeu um bocado de mcguffins. Se ela tivesse escrito um livro, e seria em alemão, se ela tivesse escrito um livro haveria um bom mcguffin como ruído de fundo. Mais ou menos como “vocês estão esperando à toa, seus cretinos” é o ruído de fundo de Esperando Godot, a maldita peça de Beckett, o dela seria “se precisar, então disfarce, mas só se precisar”.

73 + 1.

A mudinha de avenca no bolso do vestido. Ninguém desconfia de uma velhinha. Um sorriso enorme, que no fundo também era de desdém.

 

Gargalhamos calados.

 

naohalugar

 

Não sabia o que fazer com o mundo.

5 Comentários Depois de molhar os pés, mergulhe de cabeça

  1. Graça

    Oi, Camila,
    que página literária grandiosa, uma viagem espetacular!
    Obrigada, obrigada, lindo, criativo.
    Fiquei um pouco preocupada, ando rindo sozinha com minhas leituras, e, rindo de mim mesma.
    Aplausos para Vila Matas, aplausos para Camila von Holdefer !
    O mundo agradece. Escreva, escreva, Camila!
    Mil beijos.

    Reply
  2. Pingback: Melhores livros de 2015 | Livros abertos

  3. Edsonn

    Olá Camila-Von-H- ,
    Comecei lendo 1 trecho e outro e comecei a pensar que você já é escritora nos bastidores da web e outros ! Dei fé das observações e demonstrações c\ temperos críticos sobre “!” e melhorou mais sabendo dos nomes mencionados como o René Descartes e Kassel .

    Reply
  4. Pingback: Não há lugar para lógica na literatura! – Chopps e Livros

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