Posts Categorized: Philip Roth

Fantasma sai de cena, de Philip Roth

“Para minha própria surpresa, em apenas algumas semanas rompi com aquele hábito inconsciente que estivera por trás de boa parte da minha vida mental não ligada ao trabalho, e passei a me sentir totalmente à vontade na mais completa ignorância a respeito do que estava acontecendo. Eu havia exilado meu próprio país, eu me exilara do contato erótico com as mulheres e me excluíra, cansado de guerra, do mundo do amor. Eu havia admoestado a mim mesmo. Havia escapado da minha vida e da minha época. Ou, talvez, estava apenas exaurido. Minha casinha podia perfeitamente estar à deriva em alto-mar, embora estivesse a apenas trezentos e sessenta metros de altura numa estrada de terra em Massachusetts, que ficava a menos de três horas de carro da cidade de Boston e mais ou menos à mesma distância, para o sul, de Nova York.”

Nathan Zuckerman, o protagonista/narrador mais conhecido e evocado de Philip Roth — e que funciona como um alter ego do autor —, despontou pela nona vez em 2007 com Fantasma sai de cena (Companhia das Letras – tradução primorosa de Paulo Henriques Britto). Este é, até agora, o último dos romances em que o personagem, um escritor de origem judaica, foi trazido à luz. Fiel à obra como um todo, Roth não decepcionou: resgatou ao mesmo tempo o Zuckerman protagonista e narrador, utilizando a prosa em primeira pessoa com a desenvoltura e a elegância esperadas, e dando à história uma dimensão muito mais abrangente e profunda do que o olhar do eu, por mais perspicaz que seja, pode captar.

Aos 71 anos e isolado numa estrada rural nos montes Berkshire, longe da agitação de Nova York e distante das implicações, boas e más, da vida em uma metrópole, Zuckerman parece conformado com a calma rotina diária. Apartado das idas e vindas urbanas, o escritor tem tempo e tranquilidade de sobra para trabalhar; em suas pausas, aproveita para reler alguns de seus livros favoritos, nadar em um lago próximo e apreciar as músicas que mais lhe dão prazer. Aparentemente sem motivo, visto que já havia se habituado às implicações decorrentes do fato, Nathan decide marcar uma consulta, e posteriormente um procedimento cirúrgico, com um médico de Nova York que prometera curar sua incontinência urinária. Zuckerman sofrera com um câncer de próstata há cerca de uma década, e, em consequência da cirurgia para extirpação da doença, ficara incontinente e impotente (este último problema sendo irreversível).

De chofre, Zuckerman vê-se na metrópole que fora seu lar por tantos anos. A partir da sala de espera do consultório médico, ele narra sua peregrinação por Nova York depois de tantos anos absolutamente isolado — tendo cancelado o recebimento de jornais e revistas e estando igualmente distante do noticiário televisivo. Neste ponto, ao contrário do que seria previsível — o foco posto em um velho escritor absorvendo novamente o impacto do mundo moderno, um velho escritor de volta à cidade onde não se sente acolhido e protegido —, Roth demonstra mais uma vez que não é um escritor qualquer. O que poderia ser uma parábola sobre a modernidade e sobre o próprio 11 de setembro que amedrontou os norte-americanos vira, nas mãos do autor, uma fantástica, universal e complexa obra que abrange desde o ofício de um escritor e o papel da literatura (lembrando ao leitor o chileno Roberto Bolaño) até as agruras inescapáveis da velhice.

De forma casual ou premeditada, Zuckerman encontra, nos classificados de uma revista, um anúncio divulgado por um casal que deseja trocar de casa com alguém que viva num “refúgio rural tranquilo a 150 quilômetros de Nova York, de preferência na Nova Inglaterra”. Tão impulsivamente quanto havia deixado sua morada no campo para consultar-se com o médico e submeter-se a sua técnica milagrosa, Zuckerman entra em contato com Billy Davidoff e Jamie Logan para propor que, durante um ano, vivam em sua casinha em Berkshire enquanto ele permanece na grande cidade.

Há um fator que desde o início contribui para que a ideia da troca não esmoreça completamente após um olhar mais demorado: desde a primeira vez que vê Jamie, quando vai ao apartamento do casal para avaliá-los (o casal e o apartamento), Zuckerman descobre-se extasiado. Como há mais de uma década não sente nenhum tipo de impulso por uma mulher, ele decide levar a emoção adiante como forma de despedida de um mundo vivo e prazeroso.

Outros dois personagens contribuem para dar forma a Fantasma sai de cena: Richard Kliman, um jovem vigoroso, arrogante e audacioso que deseja escrever uma polêmica — e não autorizada — biografia do falecido escritor E. I. Lonoff, este último um antigo conhecido de Zuckerman da juventude, que aparecera em O escritor fantasma e que é descrito, neste, como “o escritor mais original daquela região [as Berkshires] desde Melville e Hawthorne”; e Amy Bellette, amante de Lonoff que vivera ao lado dele em seus os últimos anos de vida, agora uma anciã com um tumor no cérebro. Kliman, que de alguma forma tomou posse de um segredo escandaloso e controverso a respeito da adolescência de Lonoff, exige, de maneira invasiva e grosseira, a ajuda de Zuckerman e Amy para publicar seu livro. Nenhum dos dois parece disposto a colaborar.

A tensão entre Zuckerman e Kliman é visível. Mais do que depreciar o comportamento impertinente do rapaz de 28 anos, Zuckerman sente-se ameaçado por seu vigor, próprio da idade e da plenitude física. O confronto entre a juventude e a velhice, um dos pilares de sustentação de Fantasma sai de cena, parece tão inevitável quanto as reflexões e comparações que acabam por originar.

Philip Roth também utiliza-se da metaliteratura como forma de refletir sobre o papel prático da leitura e produção de ficção. Enquanto se encontra visivelmente apaixonado por Jamie, Zuckerman escreve longos e estimulantes diálogos fictícios, que certamente gostaria que transpusessem a fronteira com a realidade, entre ele e a mulher. Neles, ele dá forma a uma Jamie infinitamente mais conscienciosa, perspicaz e sensível do que ela aparenta ser. O processo de composição das conversas parece esgotar Zuckerman, que, mesmo extremamente cansado, não abandona a experiência. Esta é, de fato, a única coisa que pode fazer para prolongar suas emoções.

Com a ajuda de passagens brilhantes de Joseph Conrad, Philip Roth constrói mais uma narrativa profunda, digna de Zuckerman e do seu estilo (o estilo do criador combinado ao da criatura) inconfundível. Já idoso, com a memória cheia de buracos, incontinente, impotente e frágil, Zuckerman tenta lutar contra a própria degradação com a máxima dignidade de que é capaz. Não é fácil. Lutando contra a invasão da privacidade de um velho colega enquanto tenta manter sua mente funcionando para continuar, indefinidamente, seu ofício de escritor, Nathan reflete mais uma vez sobre as possibilidades da vida — e da morte.

Patrimônio – Uma história verídica, de Philip Roth

Festejado como um marco na obra de Philip Roth, Patrimônio – Uma história real é um emocionante e corajoso relato autobiográfico dos últimos anos de convivência do escritor com o pai — vítima de um tumor benigno, porém agressivo, no cérebro. Publicado em 1991, o livro ganha nova edição pela da Companhia das Letras, com tradução de Jorio Dauster.

Apontar Patrimônio como um divisor de águas não significa que a não ficção tenha marcado uma guinada brusca nas obras de Roth, provando sua força e influência através de uma transformação absoluta e nítida na temática do autor. Tendo Philip Roth mantido a excelência narrativa e o foco naquilo que, aparentemente, sempre o fascinou — o erotismo, a sexualidade, o isolamento, o autoconhecimento, a figura do escritor, a questão judaica, a política —, a variação é muito mais sutil. E, para entendê-la, é preciso compreender a dimensão de Patrimônio.

Embora o alter ego de Philip Roth, o escritor Nathan Zuckerman — que aparece em nove dos seus livros —, tenha sido hostilizado pela família ao abordar a questão judaica, a sorte de Roth foi completamente diferente. Seu pai, Herman Roth, tinha imenso orgulho do filho e o defendia de seus críticos. Herman não concluíra os estudos, e se esfalfara em uma companhia de seguros para sustentar a mulher e os dois meninos (Philip e o irmão, Sandy). Para um imigrante judeu nos Estados Unidos nas primeiras décadas do século XX, proporcionar conhecimento e cultura para os filhos era de uma importância crucial. As associações de judeus da época recolhiam doações para que os membros de uma comunidade ajudassem uns aos outros na educação de suas crianças e adolescentes. Por ter garantido uma criação decente aos filhos — onde não faltaram a transmissão de valores e o estudo formal —, pelo conhecimento demonstrado pelos irmãos e pelo sucesso óbvio de Philip como escritor, o orgulho de Herman pela conquista compartilhada por eles era descomunal.

Philip, a despeito dos contratempos e desejos de libertação comuns na adolescência, também mostrou muito respeito (e carinho, e admiração) pelo pai. Contar a história de Herman, alguém que tivera tamanha influência sobre ele, era contar, indiretamente, a própria trajetória — além de destacar e enaltecer o esforço do homem que possibilitou que se tornasse um grande escritor, ou, em outras palavras, o molde que lhe deu a forma básica a partir da qual transfigurou sua personalidade e sua arte. Talvez por isso faça tanto sentido a passagem de Patrimônio em que admite: “Mas não veio nada, a não ser o lembrete a mim mesmo no sentido de fixá-lo na memória para quando ele estivesse morto. Isso poderia impedir que toda a sua figura se tornasse etereamente rarefeita com o passar dos anos. ‘Preciso lembrar com precisão’. Você não deve esquecer nada.

E Philip Roth não se esqueceu. A história da doença e da morte de seu pai, com seus meses de aflição e sofrimento, é enriquecida pelo resgate dos passos de Sender Roth, seu avô, e de Herman Roth em solo americano. O livro começou a ser escrito ainda em 1988, quando a agonia do tumor havia começado — Herman, de férias na Flórida, acordara com parte do rosto paralisada, e um diagnóstico equivocado retardou ainda mais a descoberta do problema. Quando este finalmente foi detectado, o baque foi tremendo. Não só a enormidade do tumor assustava, mas a necessidade de uma decisão urgente — haveria intervenção cirúrgica que demandaria horas em uma mesa de operação e uma recuperação monstruosamente difícil? era melhor não mexer no problema? — tornava a situação ainda mais delicada para todos os envolvidos.

Herman Roth, outrora um homem obstinado e ranzinza decidido a fazer com que todos seguissem seus conselhos, partidário do trabalho duro e do comprometimento, é agora o ancião frágil de 87 anos que necessita de cuidados e proteção. Philip, habituado à energia e à teimosia demonstradas por Herman durante toda a vida, parece encontrar na escrita algum consolo para a previsível alteração da ordem das coisas.

Com a costumeira maestria, Philip descreve e reconstrói as bases da relação de um homem maduro com seu velho pai. Diferentemente de seus livros anteriores, entretanto, Patrimônio possui uma carga de genuína melancolia, de emoção, da noção de inevitabilidade da vida e da morte — sem, entretanto, incorrer em uma carga excessiva de sentimentalismo. Os meses em que passou às voltas com o pai, preocupado e ciente da morte que se avizinhava,  lhe deram a dimensão da própria finitude. Um episódio, aliás, foi tão ou mais impactante para sua consciência do fim, e está descrito em linhas gerais em Patrimônio: enquanto a doença de seu pai avançava, Philip sofreu uma cirurgia de emergência para a implantação de pontes de safena quíntuplas. No tempo em que passou no hospital, rezando para que o pai não morresse antes que pudesse vê-lo uma última vez, consta que refletiu longamente.

E foi a reflexão maior, suscitada pela escrita de Patrimônio, que parece ter operado as derradeiras modificações em sua ficção. É possível associar algumas passagens a livros posteriores, em especial a Homem comum, que, percebe-se, foi inteiramente baseado em acontecimentos ocorridos com Philip Roth ou com seus familiares. Mais do que isso, entende-se o fio que iria puxar todas as obras que se seguiriam estava sendo trançado em Patrimônio. A velhice, a decadência física e a morte, olhadas de perto e com sabedoria — sem qualquer tela de proteção, sem subterfúgios — operou profundas transformações. O autoconhecimento que adveio da escrita e do exame minucioso da própria vida fizeram de Roth um homem e um autor mais profundo e mais grave. É curioso notar que há humor em Patrimônio, um humor absolutamente diverso daquela veia cínica e sardônica que os leitores encontraram em O Complexo de Portnoy. O humor de Patrimônio é leve, afetuoso, brincalhão, como só as figuras descritas no livro (que, de tão caricatas, não podem ter sido inventadas) poderiam suscitar. Nem só de tristeza e melancolia, portanto, é feito o livro — embora as últimas páginas sejam um convite a derramar algumas lágrimas de emoção.

Patrimônio é uma declaração de amor. Um testemunho. Um baú de lembranças. Um álbum de fotos (cujas imagens, inteiramente dependentes da imaginação do leitor, são moldadas a partir do fluxo das palavras do autor). Uma janela para vida íntima de um dos maiores autores da atualidade. No fundo, Patrimônio é uma chave para desvendar, até certo ponto, boa parte da ficção de Philip Roth. Patrimônio é um dos livros mais fundamentais da literatura contemporânea.

.

A primeira edição de Patrimônio chegou ao Brasil em 1991 através da extinta Siciliano. A tradução é de Beth Vieira. A tradução da Companhia das Letras é infinitamente superior — na versão de Jorio Dauster, as palavras são escolhidas e ordenadas de forma muito mais elegante e precisa, respeitando a escrita original de Philip Roth.

.

O animal agonizante, de Philip Roth

O título de O animal agonizante (no original, The dying animal), novela de Philip Roth escrita e publicada no começo do século, foi retirado de um poema de Yeats: “Consome meu coração; febril de desejo / E acorrentado a um animal agonizante / Já não sabe o que é”.

Embora os motivos que levaram à escolha da estrofe em questão só possam ser conhecidos por inteiro nas últimas páginas do livro, o trecho “Consome meu coração; febril de desejo” transmite ao futuro leitor uma clara ideia do que o aguarda.

Nesta obra, Roth resgata o narrador David Kepesh, que anteriormente havia protagonizado o kafkiano O seio e O professor de desejo. Como os títulos das obras anteriores sugerem, Kepesh, professor universitário, atribui ao erotismo uma importância vital.

Especificamente em O animal agonizante, fica claro que o modo como Kepesh se relaciona com o sexo não pode, em esferas não moralistas, ser considerado patológico. O moralismo, aliás, é um ponto central do enredo: já idoso, Kepesh parece afirmar, em cada frase de seu monólogo, que sua forma de lidar com o ato sexual — e com as ideias, lembranças e manobras que o envolvem —, é, antes de tudo, despida de hipocrisia. O que move o professor é uma busca despreocupada e quase livre de culpa pelo prazer e pela autossatisfação. Kepesh é um hedonista. É importante atentar para o enorme salto que isso representa: enquanto em O professor de desejo David experimentava inúmeros conflitos internos por acreditar que sua sexualidade precisava ser contida, e enquanto O Seio mostra sua derradeira transformação em um seio feminino — tamanha era a sua confusão mental —, O animal agonizante o redime.

Nas primeiras páginas de O animal agonizante, Kepesh deixa claro que não se envolve com suas alunas enquanto o curso de seis semanas ministrado por ele (Crítica Prática) não chega ao fim. Para marcar o limite entre a vontade e a realização do impulso, Kepesh, todo ano, promove uma comemoração em seu apartamento — celebrando o encerramento das aulas e a liberdade recém-adquirida. Nestas festas, o professor inicia o processo de seduzir suas alunas; não raras, no entanto, são as ocasiões em que as alunas seduzem o professor. Kepesh é um homem conhecido e respeitado na cidade de Nova York: além da atuação na universidade, o personagem também apresenta um programa cultural na televisão e colabora com publicações da área. David Kepesh é um erudito com um conhecimento amplo nas áreas de literatura, poesia, música, pintura. Este poder parece funcionar como um afrodisíaco para as jovens, que, mesmo tendo deixado de assistir suas aulas, continuam sob sua influência.

Uma delas é Consuela Castillo, moça belíssima de origem cubana que desde os primeiros dias do curso desperta o interesse de Kepesh. Durante a comemoração em seu apartamento, Kepesh aproveita para seduzi-la com manuscritos de Kafka e reproduções de obras de arte. Movida aparentemente pela admiração e pelo entusiasmo que lhe causavam o estilo de vida do professor — e seu conhecimento e sua autoridade — Consuela não demora a tornar-se sua amante.

É neste ponto que tem início a derrocada de Kepesh, que, na época do affair, em 1992, tinha 62 anos — a moça, 24. O protagonista não parece sentir-se seguro com Consuela, o que é curioso: apesar de sua rara beleza, esta é descrita como uma pessoa simplória, que não nutre qualquer interesse por manipulações frívolas e não se compraz em ver o antigo professor aos seus pés. De uma maneira muito singular, Consuela encara tudo com naturalidade, gastando pouquíssimos minutos do dia refletindo sobre os aspectos que Kepesh, pelo contrário, remói incessantemente.

Este é o enredo de O animal agonizante — aliado ao fluxo de consciência que é próprio ao trabalho de Roth. São as considerações — pertinentes, intensas, lúcidas — sobre a velhice, o erotismo e a liberdade que fazem com que a novela, seguindo o exemplo de toda a produção do escritor, seja mais uma obra-prima digna de leituras e releituras apaixonadas em diversas fases da vida. Aqueles que mantêm um caderno com citações, ou mesmo que tenham o hábito de destacar trechos no próprio livro, verão em O animal agonizante uma fonte inesgotável de belas passagens.

Há que se dizer, entretanto, que os antagonistas de Roth, aqueles que acusam o autor de machismo e misoginia, veem em O animal agonizante um terrível exemplo daquilo que condenam tão fortemente em sua obra. De fato, Kepesh tem algo de machista. A passagem “(…) eu a havia elevado à categoria de grande obra de arte, com toda a influência mágica de uma grande obra de arte. Não a artista, e sim a própria obra”, além das constantes alusões à inteligência limitada da moça, são exemplos de como o professor a vê, ao menos inicialmente, como um objeto decorativo particularmente agradável de se olhar e tocar. Embora Consuela tenha obtido a graduação e concluído um mestrado, o respeito de Kepesh por seu intelecto é inexistente — fica claro, aliás, que o intelecto de Consuela não é digno de nota.

Embora grande parte da obra de Roth traga referências autobiográficas, a visão de mundo de Kepesh, e a própria personalidade atribuída a Consuela, não correspondem necessariamente à visão de mundo do escritor. De fato, Roth expôs as relações entre homens e mulheres como estas se apresentam atualmente — boas ou más, suscitando as reflexões que tiverem de suscitar.

Em uma das passagens do livro, Kepesh narra seu início como professor na universidade. Era o final da década de 1960. Tal como ocorria simultaneamente em grande parte do mundo, eventos em prol da liberdade eram encabeçados pelos seus jovens alunos. Entre as novas descobertas, lideradas especialmente por um grupo de garotas que eram contempladas pelo corpo docente, estava o prazer e a realização femininos. Parece ser sobre isso, afinal, O animal agonizante: a zona livre do prazer, até o ponto em que as convenções e obsessões começam a interferir na busca constante pela satisfação. Os aspectos sociais dos recém-conquistados direitos das mulheres não parecem relevantes para a formação das ideias e do comportamento do velho Kepesh. É o corpo, e tudo o que os sentidos podem fruir, o que interessa ao professor. É sobre isso, portanto, O animal agonizante.

Nêmesis, de Philip Roth

Nêmesis é a deusa grega que, na segunda geração de seres mitológicos, representa o acerto de contas divino. É ela quem equilibra, ou antes subverte, a ordem do mundo. Nêmesis atua com base em valores nem sempre compreensíveis para o homem, e que seguem, inelutavelmente, vontades e e planos superiores a ele. O título escolhido por Philip Roth para uma das novelas que compõem sua tetralogia (que inclui Homem comum, Indignação e A humilhação) não poderia ser mais adequado — tanto ao enredo de Nêmesis quanto ao propósito coletivo das obras, que tratam, com infinita beleza, de acasos e escolhas.

Na década de 1940, enquanto a atenção de todo o mundo estava voltada para os acontecimentos bárbaros no Pacífico e na Europa, algumas localidades enfrentavam uma situação tão dura e aterradora quanto a guerra: a batalha contra a poliomielite. Sem vacina na época — a imunização só foi possível alguns anos depois — a pólio vitimava especialmente as crianças pequenas. As sequelas provocadas pela doença são conhecidas: os membros são comprometidos, gerando deformações. Poucos escapam ilesos; alguns, os que contraem a forma mais cruel do vírus ou que não são tratados a tempo, não resistem e morrem. A vítima mais conhecida da pólio, como lembrado no livro, é Franklin Delano Roosvelt, ex-presidente dos Estados Unidos que, a despeito de todos os recursos de que dispunha, enfrentou uma árdua e longa batalha pela recuperação.

É precisamente uma epidemia cruel de pólio, ocorrida durante o verão de 1944 e cujas vítimas foram especialmente crianças do bairro de Weequahic, em Newark,  o chocante contexto apresentado em Nêmesis.

Eugene Cantor é conhecido como Bucky em Newark. Após um heroico episódio ocorrido quando o menino tinha dez anos, seu avô, “devido às conotações de tenacidade, coragem e espírito de iniciativa que o apelido sugeria”, lhe atribuiu a alcunha. Bucky, aos 22 anos, é professor de educação física e fiscal de pátio de recreio no bairro de Weequahic, onde a maior parte dos moradores, tal como o jovem, é de origem judaica.

Bucky Cantor, como fiscal de pátio de recreio em uma escola da avenida Chancellor,  é responsável pelo bem-estar de cerca de 90 crianças durante as férias de verão. Sua obrigação é entretê-los com alguma atividade física, sendo o beisebol o principal atrativo que leva os meninos ao convívio coletivo. É durante o mês de julho, um período de calor infernal e sol intenso (daí a arte de capa de Nêmesis), que ocorrem os primeiros casos de pólio no bairro de Weequahic. Em princípio, Bucky fica desconsolado com a perda de dois de seus alunos. Em seguida, durante um dos enterros, começa a questionar os desígnios de uma entidade superior que vitima crianças. Por fim, quando o número de casos aumenta consideravelmente, Bucky não consegue escapar da culpa e da autocensura: por que seus meninos continuam morrendo? Terá ele alguma participação, direta ou indireta, na contaminação? Ao adotar algumas práticas, ou mesmo com o fechamento do pátio de recreio, Bucky poderia ter evitado alguns contágios?

É preciso dizer que, em meados da década de 1940, pouco se conhecia sobre a pólio. Hoje sabemos que a doença é transmitida através da água e de alimentos contaminados. No passado, o pânico, o desconhecimento e a confusão eram tão intensos que se pensava que a pólio poderia ser contraída pelo ar. As mães, desesperadas para proteger seus filhos de um inimigo invisível, tornavam-se verdadeiros poços de horror e preocupação ilimitados. A paranoia atingiu níveis assustadores: algumas famílias fugiram de Newark para aspirar o ar puro do litoral ou da serra; litros de desinfetante eram usados para limpar inúmeras vezes as mais variadas superfícies; houve uma caça implacável às moscas e aos mosquitos, considerados vetores da poliomielite.

O paralelo que Roth faz com a Segunda Guerra Mundial é assombrosamente impactante. Enquanto milhões de judeus padeciam nas mãos dos soldados de Hitler, outros, especialmente crianças, sofriam de um mal terrível em Newark, Nova Jersey. Em um determinado ponto da narrativa, é mencionada a intenção da população da cidade de isolar o bairro de Weequahic: os habitantes culpavam os judeus pela propagação da pólio. O antissemitismo, portanto, esteve presente nos dois cenários catastróficos.

Em meio ao turbilhão de culpa e de dúvida, Bucky é assaltado por uma mágoa infinita: criado pelo avô para ser um homem honrado e responsável, é dispensado dos fronts no Pacífico e na Europa por conta de sua miopia. Assim, para completar o que já lhe parecia bastante penoso, o jovem vê seus dois melhores amigos da universidade conquistarem uma honra que lhe é negada. A ele restou outra batalha: a batalha contra a poliomielite. Se permanecer em Weequahic e mantiver o pátio de recreio aberto, podendo, consequentemente, controlar as atividades e atitudes das crianças, conseguirá evitar que mais algumas delas sejam infectadas? Se for para junto de sua noiva em uma colônia de férias longe de Newark, onde o saudável ar e o clima ameno o esperam, mostrará uma covardia ilimitada?

Philip Roth propõe uma deliciosa brincadeira narrativa em Nêmesis: quem conta a história de Bucky é um ex-aluno seu, também vítima da pólio. Assim, é possível alternar primeira, segunda e terceira pessoa com delicadeza, sem que haja um desvio brusco na forma de contar a história. O tradutor de Nêmesis é Jorio Dauster, o que, após muitos livros de Roth traduzidos com propriedade por Paulo Henriques Britto, surpreende os fãs mais fieis. Qualquer apreensão, entretanto, é infundada: Dauster se sai muito bem às voltas com a complexa tarefa de verter Philip Roth para o português.

Nêmesis parece questionar, tanto quanto os outros três livros da série, as possibilidades de nossas escolhas. Philip Roth, com o talento que lhe é peculiar, inculca no leitor dúvidas importantes — tanto a respeito do enredo, com seu final incrível e dúbio (e, como sempre, digno de uma torrente de lágrimas emocionadas), como a respeito das questões mais básicas que limitam e ao mesmo tempo expandem as possibilidades de nossa vida. Findo o livro, não nos livramos da história. Não nos livramos de seus fantasmas. Não nos livramos das crianças vítimas da pólio. Nêmesis produz um incômodo considerável ao abalar nossas convicções — e inclusive a forma como lidamos com questões primordiais da história e do ser humano. Por tudo isso, Nêmesis nos dá um incrível presente: uma obra de arte, uma obra de arte digna de Roth.

Portnoy.

Publicado em 1969, dez anos depois de seu livro de estreia, O Complexo de Portnoy foi a obra responsável por alçar o nome de Philip Roth à lista dos mais vendidos. Embora seus primeiros trabalhos tenham lhe rendido análises positivas da crítica ─ Adeus, Columbus, de 1959, Círculos da angústia, de 1962, e As melhores intenções, de 1967 ─, foi O Complexo de Portnoy aquele que rápida e definitivamente tornou o autor conhecido entre os leitores. Entretanto, graças ao teor controverso do livro, Roth ainda precisaria provar suas intenções e sua seriedade para ser considerado, algum tempo depois, um dos grandes representantes da literatura norte-americana contemporânea. No momento do lançamento de O Complexo de Portnoy, no limiar de uma das décadas mais criativas e intensas, ninguém sabia muito bem como classificar o best-seller que tinha em mãos.

Roth é notório por perseguir com insistência, como temática principal, a condição dos judeus no mundo moderno. Embora o autor raramente aborde o assunto com grandes e escrachadas doses de humor, O Complexo de Portnoy é essencial e completamente hilário ─ a ponto de lembrar, como frisado na introdução, as sátiras “dos grandes comediantes judeus da época, como Lenny Bruce e Woody Allen”. Ao elaborar um retrato alegórico e pitoresco de um judeu perturbado de classe média, Philip Roth reforça alguns mitos inerentes à cultura judaica.

Outro fato conhecido sobre o escritor é que Philip Roth tem predileção por resgatar personagens e reaproveitá-los em diversos livros; Alexander Portnoy, entretanto, narra e protagoniza apenas um. Ainda assim, sua culpa e sua devassidão são mais notórias do que a trajetória de Nathan Zuckerman, que figurou em nada menos que nove livros. A boa memória daqueles que já se aventuraram por O Complexo de Portnoyé mais do que justificada, da mesma forma que é natural a curiosidade  de quem, embora já tenha ouvido falar, ainda não conhece a fundo a tragicomédia da vida de Alexander. Marcante, excêntrico, engraçado e calejado, o sujeito coleciona traumas de infância questionáveis e é portador de uma lascívia extraordinária. Como o livro se presta a um fenomenal deboche, é perfeitamente plausível imaginar que Roth quis estendê-lo também à figura calada, insípida e nada participativa do psiquiatra que atende Alexander Portnoy, e à própria análise em si.

É este psiquiatra ─ seu expectador silencioso, além do leitor ─ que auxilia, à guisa de introdução, na compreensão do que significa o Complexo de Portnoy: “Quadro mórbido caracterizado por fortes impulsos éticos e altruísticos em constante conflito com anseios sexuais extremos, muitas vezes de natureza pervertida. Segundo Spievogel, ‘atos de exibicionismo, voyeurismo, fetichismo, autoerotismo e coito oral são abundantes; em consequência da ‘moralidade’ do paciente, porém, nem as fantasias nem o ato geram gratificação sexual genuína, mas sim sentimentos avassaladores de vergonha e temor de punição, em particular sob a forma de castração’. (…) Spievogel propõe que muitos dos sintomas remontam aos vínculos que se formam no relacionamento entre mãe e filho”.

Alexander Portnoy é aficionado por mulheres, viciado em masturbação e incapaz de manter um relacionamento sério cujos objetivos sejam se casar (de preferência com uma boa moça judia) e formar uma família. É importante frisar novamente a época em que o livro foi lançado nos Estados Unidos: 1969, um período fervilhante de transformações e abundante de questionamentos. Havia muitas ideias e poucas certezas. O puritanismo ainda era fortíssimo, embora a liberdade sexual também estivesse em voga em certos círculos. Como Philip Roth aborda os problemas e anseios de Portnoy sem nenhum subterfúgio, pode-se dizer que agradou e desagradou na mesma medida, dependendo da mentalidade do leitor atingido pela narrativa. O fato é que, ao circundar os dramas e dúvidas do protagonista, Roth rompeu com convencionalismos; ao mesmo tempo, criou um personagem cheio de culpa e que parece estar convicto de que o correto a se fazer ─ aquilo que seus pais lhe haviam transmitido com insistência e ênfase ─ seria se tornar um responsável pai de família. Dessa forma, Alexander oscila entre a exasperação e a raiva, externadas em forma de lascívia e devassidão, uma autocensura poderosa e cruel e um eterno ódio direcionado a sua criação e infância.

Alexander Portnoy nascera em uma família tipicamente judia. Por um tempo, fora um bom menino: tirava notas altas, era adorado e mimado pela mãe e, ao mesmo tempo em que absorvia a realidade do judaísmo, a comparava à dos góis. Em determinado ponto, Alexander revolta-se contra seus costumes e contra sua família, que lhe parece a representação de tudo aquilo que mais abomina. Buscando fugir daquilo que o incomoda, Alexander encontra refúgio no banheiro ─ e no próprio corpo. Este é só o início de uma espécie de compulsão que o leva a casos inócuos com as mulheres erradas, movido unicamente pelo desejo sexual. Um dos mais notórios envolvimentos dá-se com uma jovem a quem apelida de Macaca. A origem do apelido encontra-se em um ménage à trois e uma banana.

Os personagens secundários de O Complexo de Portnoy são, de tão hilários, caricatos ─ destaque para a típica figura da mãe judia, chantagista, superprotetora e absolutamente exagerada. O livro inteiro é pontuado de expressões em iídiche, cujos significados são encontrados em um glossário no final da obra. A tradução da edição brasileira pela Companhia das Letras é de Paulo Henriques Britto.