Uma providência especial – Richard Yates

Uma providência especial – Richard Yates

Foi apenas um sonho – Rua da Revolução, graças à adaptação para o cinema protagonizada por Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, é o trabalho mais conhecido de Yates — tanto no Brasil como no exterior. A montagem do filme, seguida de seu relativo sucesso, não são gratuitos: a escrita de Yates, profundamente realista, crua e despida de qualquer poesia visível, parece própria para roteiros hollywoodianos. O narrador distanciado, objetivo e imparcial é apenas o primeiro passo para que Yates domine completamente o movimento de seus personagens nos cenários concebidos, e, consequentemente, o andamento do enredo. Suas obras revelam um autor cujo olhar crítico e perspicaz recai sobre os Estados Unidos do século XX, e, quase no exato momento em que aconteciam, sobre as profundas transformações do período. Em cada um de seus livros, Yates criou um retrato do cotidiano de décadas passadas, cabal e inescapável, para dentro do qual o leitor é lançado e onde, após as primeiras linhas, vê-se completamente ambientado.

Em parte devido à comoção provocada pelo filme, a Alfaguara traduziu e editou, no final de 2011, Uma providência especial — escrito originalmente em 1969, oito anos depois de Foi apenas um sonho.

Não há pontos possíveis para comparações entre as obras. Apenas a desolação — a derrocada e a derrota, na luta contra um mundo hostil, de certas aspirações — é um elemento em comum que liga uma e outra, e através do qual é possível reconhecer a escrita madura e confiante de Yates. O núcleo do romance, antes um casal do subúrbio, é formado, agora, por uma mãe com grandes anseios artísticos e seu único filho.

Alice Prentice superprotegeu Robert tanto quanto possível. O pai do menino, George, divorciado há muitos anos da ex-mulher, cujo contato com Robert resume-se a tímidas tentativas de aproximação, contribui financeiramente para que a dupla possa sobreviver onde quer que seja. Alice, que acalenta doces sonhos de se tornar uma grande escultora — e recusa-se a abandoná-los mesmo quando há provas substanciais de seu fracasso como artista —, não consegue imaginar a si mesma às voltas com um trabalho maçante e formal. Assim, anos após ano, insiste na ideia de esculpir em pedra ou modelar a argila, para desgosto de George e profunda confusão de Robert. A recusa de Alice em aceitar os fatos da vida, sua insistência em continuar tendo esperanças de desabrochar e sua certeza de que logo irá conquistar uma exposição solo em Nova York fazem com que ignore completamente os limites de sua situação financeira desesperadora, que, de tão precária, vê faltar centavos para a alimentação e o aluguel. Mesmo com claras limitações, Alice, eternamente otimista, muda-se para propriedades caríssimas, gasta o que não tem, humilha a si mesma, enfrenta processos. Em meio a tudo isso, Robert cresce — por um lado, sufocado pela mãe; por outro, habituado às desgraças e à penúria financeira.

Com o advento  da Segunda Guerra Mundial, faz-se necessário, no outono de 1944, recrutar soldados de reposição para o front. Robert Prentice, alistado há algumas semanas, é um deles. Com a convocação, o garoto superprotegido, mimado e dependente precisa encontrar seu próprio caminho em um ambiente hostil.

É a transformação de um menino em homem o mote de Uma providência especial. Justapondo as vidas da mãe e do filho enquanto vivem separados — Robert na Europa, Alice em Nova York —, e colocando os holofotes sobre cenas de sua vida em comum, Yates narra, com singular beleza, a descoberta de caminhos e possibilidades por cada um deles, que, estando em diferentes estágios da vida e tendo diferentes formas de enxergá-la, passam, isolados após a separação, por suas próprias experiências. Robert, corajoso e prático, embora levemente atrapalhado, um jovem decidido a provar o seu valor, aprende dolorosas lições nos meses em que marcha por outro continente ao lado de seus companheiros. Alice, eternamente autoindulgente e sonhadora, parece continuar a acalentar expectativas vazias, eternamente presa a uma espécie de cegueira arrogante e infantil. Enquanto o menino cresce, a mulher toma o caminho inverso. E mingua, segurando nos braços uma ilusão que não deseja abandonar, sobre si mesma e sobre o próprio filho. Enquanto tenta desesperadamente reter Robert, tomá-lo para si, vê o jovem escapar entre seus dedos, transformado num homem e finalmente livre de seu egocentrismo e de seu otimismo doentio.

Os personagens de Yates são invariavelmente esperançosos — embora, de maneira premeditada pelo autor, desde o começo seja fácil intuir que quaisquer expectativas de um desfecho alegre (ou pelo menos otimista) são vãs. O peso da realidade esmaga quaisquer sonhos que as pessoas concebidas naquelas páginas possam vir a acalentar.

A sensibilidade de Yates é visível, embora não haja, em sua escrita seca e regular, nenhum toque de emoção. É o leitor quem encontra, nas cenas das quais o narrador faz absoluta questão de se afastar, a poesia, a sutileza e a beleza ocultas. E há muita beleza, e muito aprendizado, em Uma providência especial.

3 Comentários Uma providência especial – Richard Yates

  1. Leonardo

    Excelente sugestão, Camila. Tenho que tentar novos escritores e este livro parece promissor.
    Abraço,
    Leonardo

    Reply
  2. Pingback: Emily & Sarah | Livros abertos

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *