Pessoas que passam pelos sonhos, Cadão Volpato

Conhecido como Tortoni, Mario Alfieri dirige um táxi pela capital argentina. Recebeu o apelido por fazer do café de mesmo nome o ponto em que espera por passageiros todas as noites. Rivoli é um arquiteto brasileiro em viagem pela América Latina. Os personagens se encontram pela primeira vez em Buenos Aires, quando Tortoni, antes de conduzir o estrangeiro de volta ao lugar em que está hospedado, aponta a cidade através dos vidros do táxi e conta o que pode sobre a sua vida. A identificação é instantânea, e dessa simpatia mútua surge um convite inesperado: Rivoli pede que Tortoni o acompanhe à Patagônia, onde tem a intenção de conhecer um hotel de “arquitetura curiosa” localizado “no fim do mundo”. Quando colocam o carro alugado para rodar pelas estradas desertas, algo dá errado — a partir daí, o que era nítido se torna borrado e onírico. Na segunda parte do romance, que se passa alguns anos depois de Rivoli e Tortoni terem viajado pela Patagônia, seus filhos irão se conhecer em São Paulo. A ocasião não é feliz: tanto o Brasil quanto a Argentina enfrentam suas ditaduras militares, e a juventude é a que mais sofre com a repressão. É esse o enredo principal de Pessoas que passam pelos sonhos, embora, a partir dele, seja possível apontar diversas ramificações breves. A maneira escolhida para evidenciar as histórias, tanto as principais como as periféricas, merece todas as atenções: há, entre um relato e outro, uma alusão discreta à casualidade, à gratuidade, ao imprevisto. Ao leitor são dadas duas lentes para acompanhar o romance: a que se aproxima dos personagens e os humaniza — e que faz com que pareçam peculiares e únicos, cheios de anseios e intenções — e a que afasta — que faz dos acontecimentos uma sequência de movimentos caóticos e sem sentido, e que faz dos protagonistas pequenas peças numa máquina de pinball controlada pelo acaso. Até mesmo o leitor que crê numa espécie de destino pode encarar o livro à sua maneira. Pessoas que passam pelos sonhos abraça o cosmonauta russo que dá voltas na Terra e a enxerga sob uma perspectiva de luz e sombra, mas abraça também a mulher que chora em uma banheira protegida por uma casa de pedra. A junção e a organização das dimensões depende inteiramente do leitor. É difícil, em todo caso, que alguém permaneça alheio ao jogo proposto pelo autor.

Por e-mail, pergunto a Cadão Volpato se a manipulação foi consciente — se houve a intenção de fazer com que os leitores participassem dessa ilusão de movimento, de fazer com que se perdessem na complexidade do enredo, tentassem encaixar as peças que se chocam, escolhessem forçosamente uma posição, seguissem os encontros e desencontros que parecem, de fato, fortuitos. Ele diz que sim: “Para honrar o leitor que fui e sou, preferi dividir minha imaginação e minhas fragilidades. Assim, juntos, eu e esse hipotético leitor tentaríamos chegar a algum lugar que não fosse chato. Sua leitura, portanto, é correta. Escrevi sem certezas demais. Pelo contrário, fui tateando a história, embora, de alguma forma, ela já estivesse relativamente estruturada na minha cabeça. Mas se eu soubesse exatamente o que aconteceria, teria perdido a vontade de escrever”.

O leitor conhece as histórias individuais de Tortoni e Rivoli antes e depois de seu encontro em Buenos Aires. Partindo deles, suas famílias e seus amigos são vistos de perto, o que amplia o leque de vozes do romance. Francesco, filho de Tortoni, talvez venha a ser um craque de futebol — e talvez não. Seja como for, ele e Gábi, uma linda jovem cuja ligação com Francesco é indefinida, são forçados a deixar a Argentina quando se tornam alvos fáceis do regime. Sílvia, filha de Rivoli, enxerga seres misteriosos feitos de fumaça azul. Rodrigo, também filho de Rivoli, namora uma moça que não compreende e que nunca acaba de dar os últimos retoques em um desenho de Fernando Pessoa. E assim por diante. Quando viaja pela América do Sul, Rivoli conhece alguns personagens marcantes e outros nem tanto; quando se embrenham na casa de pedra, uma residência de férias em uma cidade do interior, a família de Rivoli topa igualmente com todo tipo de figuras exóticas. Não há linearidade na forma de contar a história: uma hora se está em Amsterdam, outra em Lima. Antes e depois da Patagônia. Entre encontros e desencontros.

Pessoas que passam pelos sonhos traz uma enorme tensão entre as possibilidades de escolha e de antecipação, e toda a subjetividade que isso envolve, versus a impotência e o suposto acaso. Há os cidadãos limenhos que se protegem de prováveis terremotos evitando construções altas, os encontros fortuitos que acontecem no táxi de Tortoni, o carro que quebra repentinamente na Patagônia, a própria noção da liberdade de ação — e da falta de liberdade de ação — do indivíduo inserido em um momento histórico difícil.

A sutileza muito peculiar do primeiro romance de Cadão Volpato — autor de quatro livros de contos, além de um infantil — faz com que Pessoas que passam pelos sonhos se destaque no cenário da literatura brasileira contemporânea. “Minha experiência como contista sempre me aproximou dos autores mais sutis, como Tchekhov e Raymond Carver (embora o Carver tenha sido uma descoberta tardia). Essa é a minha família. De alguma forma, assim como as bandas de rock costumam ser criadas por fãs, minha literatura sempre quis honrar o princípio desses escritores que não escancaram todas as janelas, abrem todas as portas e projetam toda a sua luminosidade ofuscante diretamente nos olhos do leitor. Eu queria escrever algo que agradasse esse meu leitor interior, que é um pouco míope e distraído”, diz Cadão.

Em relação ao leitor de Pessoas que passam pelos sonhos, este pode ser distraído ou ter uma percepção aguda. Se pertencer ao primeiro time, está diante de uma boa história — e terá uma infinidade de estradas por onde se perder e andar a esmo. O leitor excessivamente atento encontra nas pistas soltas, e na junção destas pistas, uma atividade prazerosa e desafiadora. Seja qual for o caso, só os bons livros são capazes de, na medida em que muda o leitor e a forma de leitura, proporcionar tanto o abandono como a necessidade de encontrar uma resposta.  

Músico e letrista, fundador da banda Fellini, jornalista e ilustrador, Cadão Volpato é um artista multifacetado. Ao responder com qual forma de expressão se sente mais à vontade, fica evidente a sua afeição pela literatura: “Hoje as coisas todas estão interligadas na minha cabeça. Mas a literatura é a mãe de tudo isso: tudo o que fiz passou por ela. Minha música tinha uma pegada literária evidente. Meus desenhos ficam melhores quando servem a uma certa poesia amalucada”. Da possível preferência pela literatura vem a satisfação com Pessoas que passam pelos sonhos: Acredito que cheguei a algum lugar muito especial com o romance, pois ele tem provocado reações muito afetuosas nas pessoas. No fundo, é tudo o que a gente quer como artista”.

De fato, parece natural que a reação do leitor diante de Pessoas que passam pelos sonhos, graças à possibilidade de se chegar a uma resposta muito pessoal — ou a resposta nenhuma — seja bastante afetuosa. São muitos elementos e muitas as formas de combiná-los, são muitas as alusões discretas e as nem tanto, são muitas as ramificações que partem do centro. Há inúmeros personagens, alguns explorados mais detidamente, outros que chegam e partem em umas poucas linhas.

Sobre as origens do romance, Cadão afirma: “Eu tinha acabado de chegar da Patagônia. Tenho uma afeição muito grande pela Argentina: o Cortázar foi o primeiro escritor estrangeiro que me fez ter vontade de escrever (talvez porque ele seja mais defeituoso que o Borges, um verdadeiro paredão universal). Acredito em amizades instantâneas. Queria falar de amizade. Queria falar do que significa ser jovem em tempos terríveis: daí as ditaduras no Brasil e na Argentina como pano de fundo. Queria exercitar uma musicalidade que tivesse maior fôlego (escrevo por música, sem ouvir música enquanto escrevo). Queria falar da distração masculina (mas percebo que as mulheres também se dizem distraídas e se identificam)”.

A distração é perceptível tanto como característica dos personagens como algo externo a eles. Rivoli, por exemplo, “sempre teve muita sorte, sorte flutuante e distraída”. Quando a lente torna a aproximar, a subjetividade entra em cena não como figurante, mas sob os holofotes. Quando Rivoli encontra a futura mulher, Elisa, pela primeira vez, acha sua voz infantil; ainda assim, “ele gostou, sem saber por quê”. Em outra passagem, o narrador avisa que “a simpatia de Donacci por Rivoli nasceu por acaso”. E Tortoni, em relação a uma passageira: “se identificou com ela de imediato, sem saber por quê. Pareciam amigos desde sempre, em outra língua, entre cidades distantes e corpos tão diferentes”. Para a maioria dos personagens que vêm e vão, a língua não constitui uma barreira: importa o que o outro diz sem precisar dizer. A atração se dá por um mistério e pode levar ao amor. A simpatia se dá por um mistério e pode levar à amizade.

Da mesma forma em que uma pessoa pode imprimir sua marca em outra, há aqueles que chegam e partem e não se fazem sentir. “As pessoas passavam por eles sem deixar rastro, nem sequer uma lembrança fugaz”, diz um trecho em que Rivoli e um amigo caminham pela rua. A questão numa indagação quantitativa: “quantas pessoas passam por nós que nunca mais serão vistas?”. E Rivoli, o descendente de italianos que parece um sueco e é seguramente o mais distraído de todos, complica ainda mais a questão: “Engraçado como não sabia fazer planos. Só se deixava levar, seguia as pessoas por curiosidade e distração. Eram elas que passavam pelos seus sonhos ou o contrário?”.

As estrelas, no romance, têm duplo significado — o que se percebe pela epígrafe assinada por Ungaretti, cujo final aponta para a aleatoriedade e a beleza dos encontros e desencontros entre as pessoas: “Daquela solidão de estrela/ àquela solidão de estrela”. Entre várias alusões ao longo de mais de trezentas páginas, há uma que chama a atenção para o “céu de estrelas escondidas e insignificantes”. 

Pessoas que passam pelos sonhos é construído a partir de sentenças curtas. Em poucas palavras, o autor altera ou ratifica o passo. São três partes, cada uma composta por capítulos de não muitas páginas.

Cadão conta que se dedicou ao livro de abril a junho de 2011: “Como o motorista Tortoni, que inventa seu próprio método de trabalho, eu inventei o meu: toda manhã, escrevia quatro páginas, sempre sabendo o que ia acontecer no dia seguinte. Em dois meses e meio estava pronto, e foi um dos períodos mais intensos, solitários e felizes da minha vida”.

Ainda que seja difícil medir influências, o autor menciona os livros que o acompanharam durante a construção do romance: “Penso no carrossel de escritores que girava na minha cabeça: Robert Walser (o sonho do título vem dos personagens dele), Juan Rulfo (Pedro Páramo me emprestou a fantasmagoria), Elio Vittorini (Conversa na Sicília é um dos livros que eu mais amo), Natalia Ginzburg (pela música meio rústica e divagante) e Aldo Buzzi (Viagem à Terra das Moscas, de onde tirei o espírito viajante do romance, é obra de uma alma livre)”.

Sobre a aleatoriedade dos acontecimentos, cabe resgatar os últimos versos de Das utopias, um dos poemas mais conhecidos de Mario Quintana: “Que tristes os caminhos, se não fora/ A mágica presença das estrelas” — estrelas, aqui, como as pessoas que validam nossa passagem fugaz por uma estrada e outra. Não importa quem seja o leitor, de onde vem e para onde pretende ir: a fim de olhar para as estrelas mais significativas, Pessoas que passam pelos sonhos é parada obrigatória.

“Francesco levava Gábi para todos os lados. Um dia os cassetetes baixaram muito pesado numa avenida do centro. A passeata se pôs a gritar no meio de uma rua lateral, os guardas vieram para cima deles e os cercaram, e a sorte foi que um barbudo apareceu e resgatou os dois, dizendo-se policial, arrastando-os pelos cabelos. Mas ele não era nada daquilo. Era um montonero.
Foram deixados sozinhos no apartamento de um companheiro que morava ali perto. Da janela, puderam ver a fumaça subindo em pontos isolados nas redondezas. Ouviram as sirenes de veículos passando a mil. Puseram uma música para tocar na vitrola e não ouvir os gritos que vinham do lado de fora. E, se Francesco bem se lembra, era brasileira essa música. Uma bossa nova que não tinha nada a ver com aquilo. Mas também podia ser outra coisa, ele não tinha tanta certeza. Talvez Gábi se lembrasse. Ali, tudo começou. Eles eram só dois meninos fugindo da polícia como todo o resto, até que a polícia começou a matar os que tinham cabelo comprido, os que tinham barba e juventude. Depois seria os pais dos cabeludos, e as avós dos cabeludos, para que não sobrasse nem sombra de juventude.” (p. 228-9)

* * *

“Em geral, era assim: as pessoas pulavam de uma festa a outra até o fim da noite, que era um jeito de tentar encontrar todas as festas e todo mundo, todo mundo que ia a todas as festas da cidade e nelas se desencontrava.
Todas as festas do mundo aconteciam no sábado, ou deveriam acontecer; ao mesmo tempo, em vários pontos da cidade, as melhores e as piores, e era no rumo delas que saiu uma barca lotada de gente, atrás do maior número delas que pudesse encontrar.
(…)
Francesco e Gábi descobririam, mais tarde, que havia um compatriota naquela festa, ou só poderia haver, porque quando a sala esvaziou um pouco, alguém sacou um disco do Sui Generis de uma pilha e pôs uma canção para tocar.
Não foi o espanhol que chamou a atenção dos dois nos primeiros instantes, aqueles que vinham logo depois do chiado inaugural. Nem a voz de Nito Mestre, nem o piano de Charly Garcia, que entrou na sequência.
O que gritou no ouvido de Francesco e o fez urrar de alegria foi ter lembrado da música que esquecera desde que chegara ao Brasil, e que era a música ouvida no apartamento em frente ao obelisco, em meio ao barulho de carros e de bomba estourando em pontos esparsos da cidade, aqueles dos quais corriam os grupos apavorados de estudantes, buscando refúgio em qualquer buraco que os abrigasse.
Era a música que ouviram em silêncio, aterrorizados, só para não escutar o exterior, e que agora cantavam com toda a força de que eram capazes; e esta música tinha o nome sombrio de ‘Canción para mi Muerte’ (…).” (p. 281-4)

5 thoughts on “Pessoas que passam pelos sonhos, Cadão Volpato

  1. v.

    poxa, muito bom ter a visão do autor inserida no meio da resenha como forma de resposta ao teu email. achei legal ele falar sobre como ele escreveu para honrar o leitor que foi e é, tentando escrever para si de forma a não se entediar. acho bem interessante também saber sobre o processo do escritor (coisa que na maioria das vezes só serve para me fazer sentir extremamente improdutivo e indisciplinado).
    a presença do acaso e da forma como ele acaba ligando de certa maneira as pessoas, numa obra literária, às vezes pode me parecer como uma tentativa de saída engenhosa para problemas sem solução. mas pelo que você descreve da obra, parece não ser o caso, fico feliz em saber. a descrição da voz da esposa do personagem me fez lembrar algo que disse a um amigo esses dias e me fez parar para pensar que há literatura na vida. ahaha uma viagem minha, mas que talvez tenha me servido de muita coisa pelo momento que venho passando. obrigado por esse insight.
    mais uma vez, mais um livro para a lista. tentarei adiantar esse, no entanto, preciso conhecer alguns brasileiros bons.

    abraço. bom ver resenha nova por aqui.

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  2. Graça

    Show!!!!!!
    Saudades, Camila!
    Também amei a resposta do e-mail do autor inserida na sua espetacular resenha.
    Obrigada.
    Beijos
    Graça

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  3. simone mello

    Camila, valeu a pena esperar, que resenha maravilhosa! O livro parece igualmente maravilhoso, o autor também e o comentário do V. idem! Obrigada, eu estava com saudades dos teus textos! Abraços!

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  4. Fernando

    Sem comentarios, resenha maravilhosa mas porque a demora?

    Já estava com crise de abstinência.

    Obrigado por mais uma bela dica.

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