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O livro de Julieta, Cristina Sánchez-Andrade

Gosto de histórias que contenham boas doses de realismo, coragem e sensibilidade. A temática, por incrível que pareça, pouco importa. No caso das narrativas de não ficção, os três elementos que me agradam são, na maior parte das vezes, potencializados. Ocorre que o caráter verídico proporciona ao leitor, se o enredo não for um idílio imperturbável, uma espécie de incômodo — este causado, quando temos a sorte de experimentá-la, pela empatia. Embora O livro de Julieta fuja, em tese, daquilo que costumo ler e apresentar no blog, e ainda que eu nunca houvesse lido uma só linha escrita pela espanhola Cristina Sánchez-Andrade, três fatores me levaram a incluir a obra em uma compra recente: o subtítulo (“Uma menina com síndrome de Down e a ternura de sua mãe”); um trecho do livro disponibilizado na internet, que, estratégia de marketing habilidosa e eficaz que é, aguçou minha curiosidade e despertou meu interesse; e, por último, devo dizer que a capa exerceu sobre mim algum fascínio. Tudo levava a crer que eu estava diante de uma boa história — uma história que, por ser muito pontual, difere daquilo a que estou habituada. Não me enganei. A combinação dos três fatores me conduziu a um relato delicado, corajoso e honesto de uma mãe que, através de uma interlocutora fria e seca, soube ainda na sala de parto que sua filha é portadora da síndrome de Down. A partir deste momento, ocorrido em 27 de março de 2003, Cristina se vê obrigada a descobrir o que pode sobre a trissomia do vinte e um, a aceitar as limitações da filha, a criar maneiras de estimular o intelecto e o desenvolvimento da menina, a não tecer comparações entre Julieta e seus irmãos ou entre Julieta e quaisquer outras crianças.

De fato, a aceitação de uma série de elementos que não podem ser alterados ou contornados é uma constante na narrativa. Atravessando um estado catatônico, prisioneira de um emaranhado de sentimentos, Cristina expõe, ainda nas primeiras páginas, a dificuldade imensa de acatar a realidade. Não havia como negar a diferença entre a filha que imaginara durante a gravidez e a menina que nascera. Se antes a síndrome de Down parecia remota e nebulosa, esta passa a ser, após o nascimento de Julieta, uma certeza assustadora que pede providências imediatas e certeiras. Desesperada e desamparada, Cristina despede-se da filha sonhada para abraçar, a seu tempo, a filha possível.

A história de Julieta, atualmente com nove anos, não é contada de maneira linear. Passagens curtas encimadas por um título, que eventualmente contam com um trecho de Romeu e Julieta como epígrafe, estão dispostas aleatoriamente: são bilhetes da escola, lembranças felizes, evocações dolorosas, reflexões pungentes que expressam claramente a preocupação de Cristina com o futuro da menina. São fragmentos soltos que, ao se unirem no livro, compõem um todo poético e verdadeiro — doce, embora não idílico — que representa a relação de uma mãe com sua filha deficiente. Ao mesmo tempo, a obra, que também acompanha o desenvolvimento de uma criança portadora da síndrome de Down, expõe a personalidade de sua protagonista: a teimosia, a graça e a espontaneidade da pequena Julieta.

No livro, Cristina expressa seu descontentamento (que também é o de muitos pais de crianças deficientes) com as reações de pessoas que, ao serem comunicadas ou ao perceberam algum problema, reagem de maneira desproporcional e eventualmente descabida: há as que sentem pena, as que evocam alguma religião, as que apelam para a condescendência, as que simplesmente não sabem como reagir — e invariavelmente reagem mal. Os próprios profissionais de saúde parecem, em sua maioria, incapazes de agir com sensibilidade; seu jargão “estas crianças”, referindo-se aos portadores da síndrome, irrita Cristina profundamente. Para além disso, é chocante a passagem que menciona dois padres que se negaram a batizar meninos com alguma deficiência. Percebe-se, no desconhecimento e na crueldade, um abismo entre a percepção dos que não têm nenhum tipo de contato próximo com um deficiente intelectual e o desejo de parentes e amigos de alguém com estas limitações: enquanto os primeiros mal conseguem conceber e mensurar a árdua realidade, os segundos desejam formar um indivíduo tão independente e autossuficiente quanto possível.

Somada à incompreensão e à maldade alheia, a própria convivência diária com Julieta não é nada fácil, assim como estimular seu desenvolvimento — sua fala, sua percepção, sua empatia — não é tarefa simples. Cristina deixa as dificuldades muito claras, daí a ser impossível analisar O livro de Julieta como uma mera declaração de amor de sua mãe. É mais do que isso: é uma história cheia de dor e de alegria, de percalços e de vitórias, que amplia o entendimento dos que não encontram nela algo em comum com a sua vida.

E é a empatia, afinal, uma das maiores recompensas que a arte pode proporcionar.

O livro de Julieta é editado pela Paralela, novo selo da Companhia das Letras.

Quando temos um filho com deficiência, escutamos muitas besteiras. Eis algumas delas:
— Tão pequena e já sofrendo [de síndrome de Down]!
— Vai te fazer companhia a vida inteira.
— Nasceu uma princesa.
— Ah, sinto muito, muito mesmo.
— Parabéns!
— Não se preocupe, são crianças a vita inteira. Crescem, mas continuam sendo crianças….
— Mas… Por quê?
— Que azar! Com tudo o que já temos de enfrentar na vida, acontecer algo assim…
— Você ganhou na loteria!
— Eles são muito carinhosos…
— Quase não se nota na sua filha. Só nos olhos. Existe uma operação muito simples para disfarçar os olhos puxados. É muito comum entre os chineses. É fácil, e você vai ver como fica ótimo!
— Você é forte. Vai superar…
— Eles são um presente de Deus.
— São anjos.

Mr. Peanut, Adam Ross

Adam Ross — Nova York, 1967 — é jornalista, tendo trabalhado para importantes veículos norte-americanos. Mr. Peanut, seu primeiro romance, foi apontado como um dos melhores livros de 2010 pelo The New York Times e pelas revistas The New Yorker e The Economist. Nessa estreia, Ross mescla elementos da cultura pop e metaliteratura. A edição brasileira ganhou ótima tradução de Daniel Pellizzari e capa irreverente de Kiko Farkas e Adriano Guarnieri (Máquina Estúdio).

Adam Ross faz do casamento o eixo central de seu livro. Embora não seja o único modelo possível, o relacionamento homem-mulher — com suas dificuldades, paradoxos e alegrias — é analisado especialmente do ponto de vista das diferenças socioculturais entre os gêneros e, de maneira ainda mais crucial, da violência contra a mulher. Apesar da (ou graças à) temática complexa, Ross faz de Mr. Peanut um excêntrico herdeiro das tramas policiais, com o suspense em estado bruto constituindo, em si, um elemento significativo do livro. O que o torna a obra um espécime totalmente novo é a mistura entre um tom farsesco e alegórico, deliberadamente utilizado em certos trechos, e um caso real de assassinato intercalado com a ficção. O resultado: pouco mais de quatrocentas páginas que constituem, tanto quanto um amontoado sufocante e incômodo de angústias, um thriller eletrizante e impactante.

David Pepin, executivo de uma empresa de games, gasta horas imaginando possíveis mortes para sua mulher, Alice, todas igualmente trágicas e violentas. Desnecessário dizer que seu relacionamento é conturbado: unidos desde os tempos da universidade, David e Alice passaram a enfrentar, em seus últimos anos juntos, uma rotina de discussões e silêncios magoados. Os dois se conhecem durante uma aula de cinema cujo mote fora “Casamento e Hitchcock”, e, mesmo com este prelúdio sinistro, têm a certeza de que desejam passar suas vidas um ao lado do outro. Ancorado neste primeiro encontro, o terror insólito que deu fama ao cineasta inglês é resgatado e remodelado com sabedoria por Adam Ross, que o adapta aos novos tempos — e à literatura. Assim, tem-se o principal fato de Mr. Peanut, a partir do qual todos os outros irão brotar: Alice aparece morta. Alérgica a amendoins, a mulher é encontrada após ingerir uma porção deles, as vias respiratórias obstruídas por conta da reação violenta de seu organismo ao alimento. O principal suspeito, claro, é David. A partir daí, Adam dosa suspense, sangue e drama psicológico em um verdadeiro tributo pós-moderno a Hitchcock.

Dois detetives são designados para apurar a morte de Alice: Hastroll e Sheppard, ambos com problemas matrimoniais. Hastroll enfrenta, durante a investigação, a obstinação da esposa que se recusa a sair da cama: Hannah está há cinco meses prostrada, e, por mais que o marido faça, não despe a camisola e não cruza o umbral do quarto de dormir. Sheppard, anos antes do drama do casal Pepin, fora acusado e absolvido do assassinato de Marilyn, então sua mulher. O insólito é que o caso Sheppard é verídico, e os nomes dos envolvidos não foram modificados — sequer o filho do casal teve sua identidade preservada, talvez por se tratar de um crime relativamente famoso nos Estados Unidos. Marilyn, grávida, foi espancada até a morte em sua cama. Sam Sheppard, o marido, relatou um álibi bizarro e pouco convincente, ainda mais considerando-se as constantes brigas que tinha com Marilyn, motivadas especialmente por sua infidelidade crônica. Na medida em que existem outros suspeitos e várias possibilidades para o caso, Adam Ross faz sua parte como romancista: compõe ações e diálogos que deixam a história ainda mais curiosa, embora não menos trágica.

Como boa narrativa marcada pelo século 21, é evidente que a metaliteratura não poderia ficar de fora: enquanto atravessa o turbilhão de emoções causadas pelo drama de seu casamento, antes e depois da morte da mulher, David Pepin escreve um livro. Este, claro, está diretamente conectado ao seu sofrimento. A partir daí — e mesmo em seguida à apresentação do drama dos Sheppard — é lançada, de modo impessoal, a seguinte pergunta: o que é ficção e o que é realidade? Quando o leitor pensa que tem a resposta, Adam Ross subverte os fatos (e talvez a própria questão). O trabalho de David Pepin, que cria e desenvolve games, coroa o emaranhado complexo da trama de Mr. Peanut ao evocar o mundo virtual e os avatares que quase todos colocamos dentro dele.

Talvez a personagem mais marcante de todo romance seja Alice Pepin, que absorve de diversas maneiras toda a dor e toda a frustração pelos problemas enfrentados no casamento. David, a despeito dos treze anos de união e de sua proximidade física com a mulher, encontra mais facilidade em dialogar com Georgine Darcy, “uma programadora estonteante recém-contratada”: como ambos falam a mesma língua, ou seja, como conhecem a fundo o ambiente virtual, também conseguem enviar, ainda que oralmente, mensagens diretas e perfeitamente compreensíveis um para o outro. Já a comunicação entre David e Alice, que conversam diariamente mas não partilham de uma intimidade real ou de um interesse em comum, é defeituosa. Mais um fator que avisa que estamos diante de um romance do século 21 são os antidepressivos que Alice consome rotineiramente para aliviar seus sentimentos de impotência e fracasso. Outra forma de diminuir as sensações negativas se dá através da comida: durante os anos de casada, Alice engorda assustadoramente, ultrapassando os cem quilos. Suas dietas não funcionam. Ela tenta, mas continua a comer.

A partir de personagens bem delineados e fortemente conectados ao modo de vida contemporâneo, Mr. Peanut apresenta, em uma versão cruel e desiludida, o lado negro do casamento. As dificuldades de estabelecer um contato maior do que o próprio hábito, a necessidade de desenvolver a individualidade e o autoconhecimento, as barreiras para a continuidade do amor e do respeito, as pequenas diferenças que acabam por se tornar problemas intransponíveis, a tensão crescente que se manifesta em uma palavra dita e não compreendida — o imenso desafio que é dividir a vida com alguém. Ao adotar uma miscelânea de histórias tão original, Adam Ross prova ser, tanto quanto Hitchcock, um mestre do suspense; ao construir uma narrativa brilhante e repleta de simbolismos (mesmo o título guarda um significado maior e mais sinistro do que os amendoins consumidos por Alice), o autor reclama seu lugar entre os artistas de vanguarda que apostam alto e subvertem as definições mais arraigadas de determinada época. Que o público e a crítica ignorem Mr. Peanut: isto seria uma tragédia para a literatura que fervilha e abre caminho.

Como curiosidade, existem duas referências cruciais para Mr. Peanut: a Fita de Möbius (um círculo que não possui nem começo, nem fim, e onde é impossível localizar-se) e os desenhos de Escher, artista holandês, que reproduzo abaixo. Todas as gravuras têm milhares de interpretações possíveis, e vários ângulos a partir dos quais tentar entendê-las. Como Mr. Peanut..

“Era claramente uma oportunidade perfeita para escrever, ele percebeu, e, quando se iniciou o mês de maio, o nono, ele enfim tirou o manuscrito da gaveta e leu todas as páginas até chegar ao ponto onde tinha empacado. Leu e releu uma por uma, vezes sem conta, até chegar ao mesmo beco sem saída. Estar no meio de um romance era como estar preso dentro de uma intrincada bola de fios de lã. Era diferente de criar um game. Os jogadores de um game podiam fruir infinitas variantes de ações, mas as linhas de código, ainda que vastas, eram limitadas. Era como construir uma espécie de brinquedo de corda que você também podia ver funcionar. Mas, quando você escrevia até chegar à metade de um romance, ele dava a impressão de que poderia crescer sem parar ao redor do autor.” (página 347)