Estórias abensonhadas, Mia Couto

Os pequenos contos que compõem Estórias abensonhadas foram escritos após o término da Guerra da Independência de Moçambique. No país africano onde nasceu Mia Couto, o sangue cessou de ser derramado em setembro de 1974 — 20 anos depois, em 1994, a coletânea seria publicada pela primeira vez.

De fato, Estórias abensonhadas contém, em suas inúmeras narrativas curtas, o caráter transitório e incerto — e igualmente reflexivo e esperançoso — muito comum em escritos produzidos após um conflito. Neste caso, o prolongamento do episódio intensifica, na mesma medida, a quantidade e o teor das más lembranças e os desejos de um futuro estável — Moçambique havia conhecido a guerra por dez longos anos. Somada às atrocidades implacáveis cometidas no período, está a demora do derradeiro desfecho: o adiamento da independência, que foi conquistada oficialmente em junho de 1975, trouxe ao país uma atmosfera de profunda desconfiança. O que difere esta cadeia de acontecimentos, que, com um olhar menos aprofundado, se assemelha a muitas outras em diversas partes do mundo (no antes e no depois), é a deliciosa pluralidade do povo moçambicano. É a mistura de credos e línguas e lendas e sonhos que torna a atmosfera do país, vista através do olhar sensível de Mia Couto, e a sua materialização em livro, uma composição tão única e tão bela.

A Companhia das Letras trouxe Estórias abensonhadas ao Brasil em 2012. Mais do que um prazer para aqueles que já conhecem a prosa poética e etérea de Mia Couto, o lançamento é uma oportunidade para quem deseja ter seu primeiro contato com a obra do escritor.

Mia Couto já foi comparado a Gabriel García Márquez. Guardadas as devidas proporções — aquela essência que os diferencia inelutavelmente, aquele quê de Gabo que é inimitável, e que talvez seja precisamente a mitificação do autor colombiano — há fundamento na comparação. A fluidez misteriosa, a fronteira meramente intuída entre realidade e fantasia, a explicação do que quer que seja por meio de antigas histórias e tradições — todos estes elementos aproximam os dois autores. Também parece inevitável rememorar o célebre estilo de Eduardo Galeano durante a leitura de Estórias abensonhadas. A mistura, encantadora, é de sensibilidade, de respeito à história de um país e de um povo, de ternura e de uma representação única do encantamento.

Mia Couto brinca com as palavras: molda-as com graça e sutileza, provocando sorrisos involuntários e esporádicos no leitor toda vez que este se depara com uma das invencionices — que, de tão adoráveis, não merecem ser chamadas de trocadilhos. O próprio título dá uma medida desta busca por misturar palavras e encontrar um novo modo, poético e irreverente, de expressão. A leveza do jogo de sílabas e significados, aliás, é a marca de Mia Couto: sejam substantivos comuns ou próprios, o autor os rearranja e recombina de maneira criativa. A subversão daquilo a que já estamos habituados funciona maravilhosamente: o próprio título da coletânea demonstra o poder de encantar da travessura.

Os contos de Estórias abensonhadas têm em comum a sensibilidade com que são narrados — em geral em terceira pessoa. Um grande número de personagens ganha vida em narrativas breves e delicadas, onde o humano é pintado com belos e diferentes tons.

De fato, o autor respeita o humano em todas as suas variações: isso inclui as diversas formas como nos apresentamos, os diferentes olhares que colocamos sobre as coisas.

Aquilo que não podemos explicar, aquilo que escapa a nossa compreensão, está presente em todas as pequenas histórias: o elemento fantástico, a magia oculta, as lendas que se transformam em crenças, os sonhos que se materializam na fumaça onírica que gruda em todos os cenários e em todas as digressões. Mia Couto nos apresenta muitos dualismos — fantasia e realidade, guerra e paz, feminino e masculino — apenas para provar que, na maioria das vezes, é impossível distinguir com objetividade aquilo que é relativo. Entre os extremos há poesia, melodia e uma massa maleável a ser moldada. A verdade, o que é a verdade?, questionam, a cada página, os enredos e as pessoas. Cada leitor, em Estórias abensonhadas, pode descobrir a sua. E entendemos que uma verdade demasiado realista pode, nesse caso, ser imensamente decepcionante.

Há contos dignos de menção especial. Como Nas águas do tempo, que abre o livro, no qual um avô e seu neto acorrem a um rio como forma de relembrar, ou antes de jamais esquecer, o passado — o passado, da outra margem do tempo, abana para os dois. O cego Estrelinho, sobre um homem que enxerga através de seu guia meio poeta (e, por isso mesmo, vê mais do que a vista poderia alcançar) é para ler e reler. O humor, que assoma no leitor em forma de sorrisos fugidios e quase irônicos, está presente em Na esteira do parto, O abraço da serpente e Sapatos de tacão — todos estes, de alguma forma, exploram o masculino e o feminino. A guerra, com sua violência e com a morte e o renascimento da esperança, encontra-se de forma mais pungente em Chuva: a abensonhada, O poente da bandeira e A guerra dos palhaços. O incrível Noventa e três, sobre um senhor perdido no tempo que completa esta idade cercado pela família que ignora seus desejos e anseios, é um dos contos mais belos que já li. Entre muitos outros, A praça dos deuses, com sua festa de casamento interminável onde ricos e pobres dançaram, se banquetearam e confraternizaram, fecha o livro como uma fábula marxista.

No final, Estórias abensonhadas apresenta um breve glossário com algumas palavras correntes em Moçambique que foram utilizadas na obra. Não necessitamos totalmente destes esclarecimentos: há muita coisa que, nas narrativas de Mia Couto, fica no ar.  São essas sugestões, e é este mistério, que nos encantam sobremaneira. Não importa, então, que não entendamos todas as palavras.

6 thoughts on “Estórias abensonhadas, Mia Couto

  1. Leonardo

    Olá, Camila
    Já tinha ouvido falar, mas desconheço as obras deste escritor. A resenha foi o empurrão final que eu precisava para começar a ler, obrigadão pela dica.
    Abraço,
    Leonardo

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  2. Bruna

    Eu li Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra e fiquei apaixonada pela ótica do autor e desde então passei a vasculhar mais sobre ele. Estou muito feliz com esse lançamento. Abraço. Parabéns pelo site.

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  3. Graça

    Olá, Camila!
    Parabéns pelo belíssimo comentário.
    Estou lendo Estórias Abensonhadas, e, sonhando muito, totalmente encantada com os contos, com a criatividade de Mia Couto.
    O livro é tão bom… que não quero terminar a leitura, leio e releio cada estória, saboreando, abensonhando.
    Abraços, Graça

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