O animal agonizante, de Philip Roth

O título de O animal agonizante (no original, The dying animal), novela de Philip Roth escrita e publicada no começo do século, foi retirado de um poema de Yeats: “Consome meu coração; febril de desejo / E acorrentado a um animal agonizante / Já não sabe o que é”.

Embora os motivos que levaram à escolha da estrofe em questão só possam ser conhecidos por inteiro nas últimas páginas do livro, o trecho “Consome meu coração; febril de desejo” transmite ao futuro leitor uma clara ideia do que o aguarda.

Nesta obra, Roth resgata o narrador David Kepesh, que anteriormente havia protagonizado o kafkiano O seio e O professor de desejo. Como os títulos das obras anteriores sugerem, Kepesh, professor universitário, atribui ao erotismo uma importância vital.

Especificamente em O animal agonizante, fica claro que o modo como Kepesh se relaciona com o sexo não pode, em esferas não moralistas, ser considerado patológico. O moralismo, aliás, é um ponto central do enredo: já idoso, Kepesh parece afirmar, em cada frase de seu monólogo, que sua forma de lidar com o ato sexual — e com as ideias, lembranças e manobras que o envolvem —, é, antes de tudo, despida de hipocrisia. O que move o professor é uma busca despreocupada e quase livre de culpa pelo prazer e pela autossatisfação. Kepesh é um hedonista. É importante atentar para o enorme salto que isso representa: enquanto em O professor de desejo David experimentava inúmeros conflitos internos por acreditar que sua sexualidade precisava ser contida, e enquanto O Seio mostra sua derradeira transformação em um seio feminino — tamanha era a sua confusão mental —, O animal agonizante o redime.

Nas primeiras páginas de O animal agonizante, Kepesh deixa claro que não se envolve com suas alunas enquanto o curso de seis semanas ministrado por ele (Crítica Prática) não chega ao fim. Para marcar o limite entre a vontade e a realização do impulso, Kepesh, todo ano, promove uma comemoração em seu apartamento — celebrando o encerramento das aulas e a liberdade recém-adquirida. Nestas festas, o professor inicia o processo de seduzir suas alunas; não raras, no entanto, são as ocasiões em que as alunas seduzem o professor. Kepesh é um homem conhecido e respeitado na cidade de Nova York: além da atuação na universidade, o personagem também apresenta um programa cultural na televisão e colabora com publicações da área. David Kepesh é um erudito com um conhecimento amplo nas áreas de literatura, poesia, música, pintura. Este poder parece funcionar como um afrodisíaco para as jovens, que, mesmo tendo deixado de assistir suas aulas, continuam sob sua influência.

Uma delas é Consuela Castillo, moça belíssima de origem cubana que desde os primeiros dias do curso desperta o interesse de Kepesh. Durante a comemoração em seu apartamento, Kepesh aproveita para seduzi-la com manuscritos de Kafka e reproduções de obras de arte. Movida aparentemente pela admiração e pelo entusiasmo que lhe causavam o estilo de vida do professor — e seu conhecimento e sua autoridade — Consuela não demora a tornar-se sua amante.

É neste ponto que tem início a derrocada de Kepesh, que, na época do affair, em 1992, tinha 62 anos — a moça, 24. O protagonista não parece sentir-se seguro com Consuela, o que é curioso: apesar de sua rara beleza, esta é descrita como uma pessoa simplória, que não nutre qualquer interesse por manipulações frívolas e não se compraz em ver o antigo professor aos seus pés. De uma maneira muito singular, Consuela encara tudo com naturalidade, gastando pouquíssimos minutos do dia refletindo sobre os aspectos que Kepesh, pelo contrário, remói incessantemente.

Este é o enredo de O animal agonizante — aliado ao fluxo de consciência que é próprio ao trabalho de Roth. São as considerações — pertinentes, intensas, lúcidas — sobre a velhice, o erotismo e a liberdade que fazem com que a novela, seguindo o exemplo de toda a produção do escritor, seja mais uma obra-prima digna de leituras e releituras apaixonadas em diversas fases da vida. Aqueles que mantêm um caderno com citações, ou mesmo que tenham o hábito de destacar trechos no próprio livro, verão em O animal agonizante uma fonte inesgotável de belas passagens.

Há que se dizer, entretanto, que os antagonistas de Roth, aqueles que acusam o autor de machismo e misoginia, veem em O animal agonizante um terrível exemplo daquilo que condenam tão fortemente em sua obra. De fato, Kepesh tem algo de machista. A passagem “(…) eu a havia elevado à categoria de grande obra de arte, com toda a influência mágica de uma grande obra de arte. Não a artista, e sim a própria obra”, além das constantes alusões à inteligência limitada da moça, são exemplos de como o professor a vê, ao menos inicialmente, como um objeto decorativo particularmente agradável de se olhar e tocar. Embora Consuela tenha obtido a graduação e concluído um mestrado, o respeito de Kepesh por seu intelecto é inexistente — fica claro, aliás, que o intelecto de Consuela não é digno de nota.

Embora grande parte da obra de Roth traga referências autobiográficas, a visão de mundo de Kepesh, e a própria personalidade atribuída a Consuela, não correspondem necessariamente à visão de mundo do escritor. De fato, Roth expôs as relações entre homens e mulheres como estas se apresentam atualmente — boas ou más, suscitando as reflexões que tiverem de suscitar.

Em uma das passagens do livro, Kepesh narra seu início como professor na universidade. Era o final da década de 1960. Tal como ocorria simultaneamente em grande parte do mundo, eventos em prol da liberdade eram encabeçados pelos seus jovens alunos. Entre as novas descobertas, lideradas especialmente por um grupo de garotas que eram contempladas pelo corpo docente, estava o prazer e a realização femininos. Parece ser sobre isso, afinal, O animal agonizante: a zona livre do prazer, até o ponto em que as convenções e obsessões começam a interferir na busca constante pela satisfação. Os aspectos sociais dos recém-conquistados direitos das mulheres não parecem relevantes para a formação das ideias e do comportamento do velho Kepesh. É o corpo, e tudo o que os sentidos podem fruir, o que interessa ao professor. É sobre isso, portanto, O animal agonizante.

4 thoughts on “O animal agonizante, de Philip Roth

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  2. Sérgio Farias Filho

    Grande livro! Destacaria, como a autora do post, as passagens em que Roth retrata a revolução sexual dos babyboomers. Outra parte que me chamou bastante atenção foi a decepção de um affair de Kepsh, uma mulher de sua idade, ao descobrir que o mesmo tem saido com outra mulher. O desespero que exala do discurso dessa mulher é impressionante, acho que nunca vi algo tão forte e real em se tratando da crise de uma mulher de meia idade solteira nos dias de hoje.

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